O quadro
As portas de três automóveis abriam-se umas atrás das outras. Dos seus interiores saíram dez homens e, no imediato, ouviram-se vários estrondos provocados pelo fechar das mesmas. Os homens eram todos irmãos e ainda faltava um da mesma prol. Uma prol composta só de homens. Os seus pais procriaram outros quatro filhos, todos eles dariam também homens, não fosse terem visto o céu ainda bebés. Deixaram para trás os carros e num tropel foram-se abeirando do largo portão. Paralelo à estrada, erguia-se um alto e comprido muro de ameias. Sobre o largo portão um arco em ogiva que se erguia mais alto e colmatado, ao centro, como torre que se eleva da igreja, com o brasão de família. Era uma família ilustre, tendo existido no seu ceio um ministro e um poeta pintor. Do lado de dentro do portão agarrava-se à parede um sino. Para que este falasse, teria de existir alguém disponível para puxar a corda que pendia lá do alto, e quase sempre havia, principalmente para o bater das badaladas à santíssima trindade, de manhã, ao meio dia e ao cair da noite. A devoção católica muito enraizada naquela casa, é que fazia com que o rito se cumprisse, pois o propósito para que o sino ali fosse colocado foi outro, ser tocado para dar sinal que as refeições para os criados estavam prontas e para encerrar a labuta no campo.
Naquele dia, excepcionalmente, uma criada fez soar dez badaladas, tantas como as horas que os ponteiros marcavam. Quando os dez homens se abeiraram do portão já a dezena ia a meio e eles esperaram a última pancada, sem que a tocadora, uma criada de trajes simples e que servia a família há mais de quarenta anos ouvisse o arrastar do calçado. Finda a derradeira badalada, ela desandou o trinco e fez o portão girar nos gonzos, ao chamar dos homens.
- desculpe esta pequena invasão, mas gostaríamos de falar com a senhora da casa. – Tomou a voz o quarto mais velho, julgando-se o principal interessado no assunto que ali os trazia.
- Sim, esperem que os vou anunciar. – Arrastando uma perna, a senhora deixou-os sem mais delongas. Eles para que o tempo não fosse dado como perdido, aproveitaram para contemplar os jardins magníficos com as belas e seculares árvores e os lagos bem nutridos de peixaria.
Os dez irmãos mantinham-se juntos, um pouco de ansiedade se apoderara de todos, a senhora iria revelar-lhes o tal mistério? Teriam de ter calma e pedir com jeitinho. Como que se a criada tivesse dito quem eram os visitantes, a dona da casa veio atendê-los à porta. Vinha descontraída, numa das mãos uma bengala que usava com notado esforço para se equilibrar, usava roupas finas, uma saia de azul turquesa, uma blusa aos quadrados e um chapéu de abas largas descaído para trás preso pela fita. O rosto era adelgaçado, seguindo as linhas do resto do corpo, não era muito amiga das rugas e nem estas eram suas amigas, pois poucas se colaram na sua pele. No alpendre onde a senhora se quedara, existia um cadeirão feito a partir de um velho rodeiro de carroça, um dos muitos que antigamente servira a quinta. Ela sentara-se nele e desfiou a falar:
- Então bons homens, o que os traz por cá?
- Nós somos filhos…
- Eu sei de quem são filhos, - cortou a senhora – todos os dias, ou quase todos, eu esbarro com os olhos na vossa mãe.
- Olha para o quadro, quer a senhora dizer?
- Pois claro, já faz uns bons anos que a não vejo pessoalmente. Já agora como está ela?
Os dez haviam desenhado um hemiciclo, ficando a senhora na dianteira, e como que todos sentissem necessidade de falar o mais velho dava indicações com o dedo para dar lugar a que um próximo respondesse.
- Coitadinha, está muito mal, internada no hospital. – Respondeu um outro.
- Lamento imenso, sabem como é, a idade está sempre a fazer das suas e ninguém escapa, ninguém escapa à sua ira! Eu vejo por mim, passo a maior parte dos meus dias sentada nas cadeiras da casa e do jardim, de nada me serve, se me deixam de doer as pernas passa a doer-me o rabo, é o que vos digo, a idade não perdoa!
- A nossa mãezinha já fez noventa, mas a coisa deve estar para breve, está quase no fim da vida… - Os mais ligados à mãe emocionaram-se com as palavras do irmão, pareciam duras mas, continham uma grande certeza, que os levava a ficar naquele estado.
- Não sofram por antecipação, os desígnios de deus são pessoais e ele gosta de cada um dos seus filhos como se cada um de nós fosse o seu filho único, para cada um ele tem uma missão e a da vossa mãe talvez não tenha chegado ao fim.
- Que ele a oiça minha senhora, que ele a ouça…
- Amem, amem! – Responderam todos a uma só voz, e a senhora continuou:
- Ela é da minha idade, lembro-me bem disso, casou-se muito cedo e eu fiquei onze anos para trás, a ela as moscas atacaram-na antes da hora, ou se calhar a mim é que me atacaram tarde, vá-se lá entender a natureza feminina, eu entendi bem a minha mas não entendi a das outras, mas isto é conversa para mulheres e vocês são todos ainda umas crianças, pelo menos à minha beira e eu não gosto das crianças, fazem sentir-me mais velha, velhos são os trapos, e esses queimam-se na fogueira, para a fogueira é que eu não quero ir, dizem que o inferno é uma fogueira grande, e eu detesto fogueiras grandes, muito menos lá queimar a minha pele, a pele queimada custa muito a sarar e a cura é pior que o ferimento, e eu peguei a falar e nunca mais me ia calando, isto é o tal fruto de que vos falei, é o fruto da idade e a minha é tanta como a da vossa mãe, entenderam alguma coisa?
Eles entreolharam-se e acenaram afirmativamente e a senhora meteu outra vez a falar:
- Eu disse-lhes há pouco que esbarro com os olhos na vossa mãe todos os dias, é verdade. Quando o meu sogro pintou aquele quadro, eu achei-o tão lindo, tão resplandecente, parecia ter vida e dar vida a quem para ele olhasse, a criadora e a criação, a alva e o meio dia, a meta sem obstáculos, a estafeta nas mãos do atleta que a passa de mão em mão, procurando a base do existir seguindo um princípio predefinido, a razão obvia das coisas que levam a existência mais adiante. Deixem-me tomar o fôlego, quando eu falo, faço-o sem intervalos, lá nisso pareço uma rapariga cheia de ar nos pulmões. Como eu ia a dizer, o meu sogro pintou aquele quadro e, como eu gostei tanto dele, quis dizer que era eu que ali estava, contudo, não pude levar essa mentira adiante, ele sem contemplações fez-me passar por aldrabona. Eu ainda não era mãe, o quadro mostra uma mãe, a vossa mãe, diga-se a verdade, abono da mais pura verdade, a dar a mama ao filho. Eu como vos disse, não tinha filhos e maldita foi a hora que quis passar pela pintada, ele sem que eu tugisse nem mugisse perguntou-me se gostava de que um bebé mamasse nas minhas mamas sem elas terem leite. O pior disto tudo, é que ele fez-me estas perguntas insidiosas perante uma série de pessoas estranhas. O meu marido, o meu finado marido, defendeu-me na frente de todos, porém quando a sós chamou-me de tudo e mais alguma coisa, quis saber se eu seria capaz de desnudar-me da cinta para cima na frente do pintor, e que ainda por cima o pintor era meu sogro. Eu corei e fiz greve de palavras até ao fim daquele dia.
A este último vocábulo os filhos voltaram a cruzar os olhares, para eles o facto da mãe deles posar para o pintor também era motivo de vergonha, pelo menos para eles foram proferidas com alguma pungência.
- Sabe disse um outro – o fim com que a nossa mãe posou deve ter sido muito diferente de que seria o seu…
- Ora meu rapaz, poucos são os fins que justificam os meios, pelo que vim a saber foi tudo uma questão de trocos, desculpem lá a franqueza mas ela foi uma vendida! Não, não me olhem com esses olhos, não foi isso que quis dizer, valha-me deus vendeu-se mas talvez por necessidade, mas que foi descarada isso foi e disso ninguém a livrou!
- Que tal avançarmos com isto para a frente? – Quis arrumar ali com a questão o sétimo filho. Perante tal resolução, um outro fazendo correr os dedos pelos fios da barba transportou a conversa para os jardins e tudo o resto que dali se abarcava. Por fim, depois de alguma relutância por parte da dona da casa, lá entraram para o imenso salão. Estava magnificamente decorado com móveis antiquíssimos, alguns de mogno e outros de carvalho e sobre uma bela cómoda de base de mármore de carrara pendia o belo quadro. Reuniram-se todos de fronte dele e a devoção com que para ele olhavam era maior que a dos doze apóstolos a mirar o messias. Todos, sem excepção, retiraram os lenços dos bolsos e limpavam as lágrimas correntes nos rostos. Aquela era a mãe de cada um, cada um a via, a sentia, a contemplava, a idolatrava de modo distinto. Foi das suas entranhas que cada um teve a sua vida. Aquela era a mãe de cada um, porém, os anos passaram e das suas reminiscências não brotava nenhum resquício da mulher que aos olhos deles se destacava.
- Não precisam demonstrar pudor pelo que presenciam… - Observou a dona da casa. Mais um embaraço e um pungente mau estar entre alguns. Para disfarçar, um após outro começou a pronunciar os vários nomes de cidades importantes por onde o quadro fez périplo em exposições, cada um dos filhos foi dizendo, por ordem decrescente, uma ou mais cidades onde visitara o quadro: Porto, Lisboa, Londres, Paris, Madrid, Barcelona, Bilbau, Hamburgo, Leão, na Espanha, diziam uns, retrucando outros que na cidade irmã, mas do lado francês. Amesterdão, Copenhaga, Oslo, Rio de Janeiro, Estocolmo, e paramos por aqui visto a conversa se alongar sem pressas nem contemplações para uma exibição jactante sobre as vezes que cada um viu o quadro em locais diferentes.
- Basta, podem parar, sei muito bem que este quadro deu a volta ao mundo. Por causa dele o meu sogro também a deu. Ele sempre quis se afirmar como poeta e ao fim e ao cabo foi como pintor que se destacou.
- Senhora venda-nos o quadro. – Suplicou o oitavo filho, era atarracado e ostentava dinheiro pelo jeito de ser.
- Valha-me deus e a si que ele lhe valha, então acha que lhes ia vender o quadro? Uma obra desta natureza jamais poderá ser vendida, cada obra pintada é um exemplar único, não é como um livro que de um se transforma em milhares, no fim das contas é o original que tem o valor todo, mas as cópias são como as fatias de uma broa que acabam por saciar a fome a todos.
- Mas minha senhora…
- Nem mas nem meio mas! Sei donde vem e para onde quer ir, contemplem o quadro, é a vossa mãe e disso devem sentir orgulho, porém, não peçam o impraticável!
- Compreendemos minha senhora, apenas queríamos adquirir a pintura pela mesma razão que acabou de enunciar…
- Também os compreendo, todavia, se vendesse este quadro estaria a vender a alma do meu sogro, avô dos meus filhos, foi ele que deixou em testamento que só ao fim da terceira geração o quadro poderia ser doado a um museu.
Entretanto, o filho mais novo ali presente, aquele que olhava pela mãe e que sabia que não era ele de forma alguma quem aparecia a mamar sofregamente nos peitos da mãe, pôs-se a explicar que desejavam levar o quadro ao hospital, afim de que a senhora que definhava num leito o pudesse olhar e quem sabe revelar quem era o filho que fora retratado. Ao cabo de muitos pedidos, a senhora concordou fazendo tenções de também ela acompanhar o quadro, desse modo iria, pelos indícios, despedir-se da retratada. O quarto filho mais velho, arranjou, atiçado por uma ânsia de que já falamos, maneira de transportar o quadro e a senhora no seu automóvel, e assim foi. Ele ao volante, a senhora ao seu lado e do lado de trás outro irmão que segurava a obra.
- Cuida bem da nossa mãe e de mim…
- De ti? Ora essa, quem te garante que sejas quem está no retrato?
- Ora essa digo eu, a nossa mãe sempre disse que quando o poeta pintou o quadro que seguia com alguns dos filhos que iam pelos próprios pés, sendo assim, não podem ser os mais velhos, visto ela ainda ser uma jovem no quadro, também não podem ser os mais novos…
- Essa tese que você defende, - voltou a senhora para o condutor – pode muito bem não ter qualquer lógica, pode também ser que tenha razão quanto ao facto de ela seguir com alguns dos filhos mais velhos, e isso o meu sogro também mencionou, quanto ao facto de ela ainda ser jovem no retrato é uma verdade, no entanto não nos esqueçamos que, o meu sogro era um artista e pode muito bem ser que ele tenha recorrido a feições faciais que a vossa mãe possa ter tido em tempos idos.
O condutor ficou desconcertado, tinha conjecturado todas as hipóteses conquanto que aquela estava a anos luz de ter sido tida em conta. Quanto ao do banco de trás, o sorriso que espelhava dava-lhe mostras de uma grande esperança de ser ele o representado.
- Sabem que esta vossa vinda a minha casa ateou-me a lembrança de outros tempos? Parece que recuo a uma hera muito distante, era uma época de grande alegria para mim, outra juventude, outra saúde, outras carnes e, acima de tudo, outra felicidade que deste conjunto resultava, enfim, porque foi que os relógios não pararam?
- Ninguém os pára, só a morte. – Emendou o mais novo.
- Ora meu senhor, não me venha com maus agouros que o cuco ainda vai cantar muito antes que ela me apanhe!
- Que deus a ouça e a ajude e a mim que não me desampare!
- Está certo, mais que certo! – Tornou a senhora voltada no banco, atirando alternadamente o olhar para um e outro. – os tempos eram outros pela ocasião que tudo se passou. Poucos eram os campos que haviam sido desbravados, e os que o foram, foram-no pela força das enxadas e dos arados puxados por animais. A nossa aldeia era inteiramente rural, parecia esquecida pelo progresso que, embora lentamente, lá se ia evidenciando…
Esqueçamos o automóvel por enquanto, para afincar a história no ponto em que a tela foi pincelada.
A miséria era extrema para aquele casal que via nascer as crias, alternadas de doze em doze meses, o máximo de treze em treze. O homem dedicava-se à cantaria e a mulher à lavoura, tendo o marido a ajudá-la nos intervalos. Entre a humilde habitação e alguns dos terrenos, alugados, pois os recursos não lhes permitiam comprar um metro quadrado de terra que fosse, quanto mais um pedaço de chão. Pouca comida havia para trespassar pelas goelas, os filhos tinham primazia e mesmo assim passavam as passas do Algarve.
Numa manhã primaveril, a senhora dirigia-se com alguns dos filhos para o campo. Na cabeça levava uma canastra de vimes com um bebé de poucos meses de vida. os outros filhos seguiam-na em fila indiana, como os patinhos seguem a pata que passeia pela mata, patinhos e patinhas que com as suas patinhas acompanham a patinha. Recordamos esta lengalenga para avivar estes trocadilhos que andam meio esquecidos e, que nos elucidam como a necessidade obrigava os pais mais atingidos por ela a andar com os filhotes atrás… Deixaram a zona do casario e seguiam por um caminho hostil onde prosperavam silvados, pinheiros e eucaliptos, giestas e amieiros. Por aquelas bandas só se ouviam os passarinhos e ao longe alguns berros entoados contra os animais que puxavam os arados, ou carroças cheias de mato, de fagulha, de pinhas e estrume. Ao fundo, não muito distante, por entre vales e colinas, veredas e socalcos, murmuravam no seu deslize as águas de um rio. Iam sôfregas, com pressa de se misturarem às do mar, sem se lembrarem que mais cedo do que poderiam imaginar teriam o seu destino ali próximo. Ao primeiro choro do bebé que seguia na canastra, a senhora desceu-a e avisando as crianças para saírem do ângulo de visão pegou no pequeno ao colo e preparou-se para lhe dar a mama. Coincidência ou não, naquele mesmo sítio o bebé já havia chorado e repetira-se o episódio que se segue: Estavam próximos a um carvalho enorme, com as raízes salientes na terra e no seu tronco existia uma espécie de fenda onde ela assentava na perfeição. Sentara-se por fim e encostara-se na falha do carvalho, não sem antes inspeccionar se vivia bicho por ali. O bebé saciou-se e, ao cabo disto, ela erguera-se e viu os restantes filhos acariciados por um senhor ali perto. Viera montado num cavalo, era um senhor com ares de fidalgo importante, de bons trajares e de bem tratada pele, abeirou-se devagarinho a ponto dos passos do cavalo não terem sido escutados pela mãe. O senhor era de uma calmaria extrema, não corria contra o tempo, ao invés, o tempo é que corria contra ele. Dirigia-se para o rio, e ali, num pontão de pedra estreito procurava inspiração para compor novos poemas. Era seu costume colocar-se sentado no pontão com as pernas pendentes quase a roçar as águas, e estas reflectiam-nas e a sua figura assustava os peixes.
- Desculpe minha senhora, não é por mal que cá estou, você deve conhecer-me…
- Claro que o conheço, o senhor é o poeta.
- Também pinto, e é por isso que cá vim parar…
- Não entendi, sabe, sou analfabeta e não tenho muito saber…
- O saber vem da vida e nem sempre das letras. – Tolerou o fulano.
- O senhor viu o que eu estava a fazer?
- Hoje não, mas peço mil desculpas, sei o que fazia e já vi em outras ocasiões. Neste mesmo carvalho e desde a primeira vez que vi, que tenho andado a tentar reunir coragem para lhe fazer uma proposta.
- Quer dizer que já…
- Já minha senhora, é uma cena comovente, a criadora amamentando a criação, a alva e o meio dia…
- Não se ponha para aí com ladainhas, no fim das contas o senhor não passa de um atrevido…
- Não continue minha querida senhora, foi sem querer, eu fui aliviar-me ali por de trás de uma moita. Como sou lento nestas coisas, ao ouvir choro de criança deitei atenção e vi o que a senhora sabe.
A mãe sentia-se ludibriada, um estranho a vê-la a fazer coisas que apenas permitia ao seu marido, e agora um sujeito qualquer revelava-lhe tê-la visto assim, sentiu vontade de bater nos outros filhos, olhou para eles com desprezo, uns dorminhocos que não a defenderam de maus olhares.
- O senhor fala para aí numa proposa ou coisa que o valha, que diabos quer me dizer?
- Quero dizer, com todo o devido respeito, que estou disposto a pagar uma boa soma de dinheiro para que a senhora permita que eu a pinte, resumindo e concluindo, que a senhora dê de mamar ao seu filho e que eu a possa ver nessa cena comovente…
- Era só o que me faltava! – Resmungou a mãe, depois de reunir fôlego para o fazer.
- Veja bem minha doce mãe, eu sou um artista e não pense que sou atrevido ou coisa que o valha, a senhora já me venceu, até já falo como a senhora, eu apenas pretendo criar um quadro.
- Pois pode esquecer esse raio dessa ideia!
- Pago trezentos escudos… - Ao ouvir a soma, a senhora ficou de olhos arregalados, era uma pequena fortuna que daria para alimentar os seus filhos por alguns meses. Os escrúpulos podiam ter o seu peso, contudo, os trezentos escudos também tinham o seu. Orgulhos em tempos de crise só dariam tamanho à malvada da crise. Era um peso a ter em conta. Os filhos berravam de fome, em choros coactivos. Quantas e quantas vezes se pisavam, lá em casa, montes de caca na ausência de farrapos para as fraldas. Se os olhos da natureza viam toda a amamentação, que diferença faria se os daquele fulano também vissem?
- Vou aceitar, rogo ao nosso senhor que me dê forças para isto, vou sentir nojo de mim e de vossemecê por tempo sem fim, mas que diabos, os meus filhos a cair à mingua e trezentos escudos sempre são trezentos escudos!
- Grande atitude minha senhora, acredite que é em nome da arte que lhe peço este sacrifício!
- Vamos a isto, pode começar? – Quis saber a mãe com ganas de arrumar ali com a questão.
- Hoje não dá, faltam-me os materiais e eu desejo que o seu filho mame com vontade, de maneira que por mim pode ser amanhã aqui mesmo a esta hora. A cena tem de ser captada em todo o seu esplendor, em toda a sua magnificência, no êxtase de toda a sua verdade, um registo que ficará perpetuado para a eternidade…
- Lembro-me da minha mãe dizer que com o dinheiro matou a fome aos filhos, por muito tempo. – Dizia no fim da viagem o condutor, enquanto abria a porta do carro e o contornava para ajudar a dona do quadro a sair. Todos os irmãos se reagruparam e levando a senhora e o quadro subiram ao leito da retratada. Como que por milagre, a doente ganhou uma resplandecente cor na pele, foi efémera, mas o que importou é que a ganhou e conseguiu pronunciar algumas palavras, ainda que as desatasse a muito custo. Tendo os onze ao redor do leito e olhando para o quadro, ela disse:
- Sou eu, como eu fui linda! Foi por amor que fiz isso!
- Querida Elisa, os teus filhos procuraram-me porque desejam saber quem é o pequeno que está contigo na pintura.
- É um dos onze…
E partiu…
José Torres Gomes 9 – 05 - 11

1 comentários:
gostei do texto, não conheço ainda os outros, mas é importante que se faça uma ressalva em relação a uma palavra que não está correctemente empregue-
Na linha número nove, onde se lê "tendo existido no seu ceio um ministro e um poeta pintor" a palavra "ceio" é a primeira pessoa do verbo cear, que obviamente não encaixa com o sentido da frase . O que deve ser escrito neste contexto é "seio".
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