Boas Leituras

" A sombra é sempre escura até mesmo a dos cisnes." Eugénio de Andrade



Sexta-feira, 7 de Outubro de 2011

Desafio de Poesia Setembro 16 participações


Foto: daqui   


Mote de Bernardete Costa


Foi quando adormeci
sob a calidez dos plátanos da cidade.
E só mais tarde cresci.

Bernardete Costa, in: Os Lugares do Tempo.



1.
cresce a folha da árvore,
as estações dentro do ano.
pela sombra da cidade,
a personagem dentro do cano.

2.
na flor do céu descanso azul
onde chove quente o nosso amor
ouve-se um radiozinho a pilhas
a última canção de Amália
como uma flor e um anjo
voam na floresta

3.
Esplende e cai, a folha do plátano.
Cobre meu ser cansado, abriga-me
do gélido despertar nas trevas
A personagem, divindade sem alma,
viaja no sangue venoso. Ruma para
as artérias, num ritual de purificação
A ausência de musicalidade nos versos
de outono enfim sela o ciclo obscuro

4.
em festas de santos
saberei ou não cantar o fado
há lugares e lugarejos
em que me perco

gostaria de escrever um poema
ou uma canção sobre as sardinhas
encantam-me

ainda me lembro dos santos beijos
nas ruas de alfama
e a canção

saberei ou não cantar fado
há lugares e lugarejos em
que me perco em girassóis

ainda me lembro ao fim da tarde
dos santos beijos nas
vielas de alfama

e a canção

a porta já estava aberta mas
bati três vezes na madeira
respirei fundo

e entrei

eu sei que me esperas

5.
no leito perdido de branco,
tão alvo que a mais pura das virgens o imaculava ao adormecer,
mergulhei naquela noite fria e tão negra sufocado pelo medo da tua ausência
queria os teus braços e apenas encontrei o vazio dos meus.
6.
fala-me a língua da saudade. pudesse, rimado,
um outro tom diferente que até à exaustão do mar, do eco,
do sempre e ao mesmo tempo igual desenhasse.
deito-te na voz, frontispício da língua,
mil receitas de solidão tão igual.
e ela pudesse ser cabo inteiro, tenso em fortaleza,
onde pé-ante-pé caminhasse o trapezista da Luz
e outras coisas mais, tão solenes e vagarosas
como reserva de ano ímpar guardada na cave –
assente o pó!

7.
cresce segredo, cidade e dedos,
idade e sonho:
aumento de cor.

8.
Saí pela mesma porta aberta,
percorri lugarejos em busca
de um sinal da tua presença.
Nada vi, tampouco o silêncio
me apontou as tuas lembranças.
No leito vazio de nós a alvura
abraçava o vento marinho.

Rumores do mar e assobios da brisa
ressoam, de tempo e espaço distantes,
os cantos da saudade e da solidão.

As ondas bonançosas todavia crescem,
majestosas. Trazem solenes palavras,
em ebulição secreta.
Mas nada adjetiva o enigma, senão a cor .

9.
Na solidão nocturna das ruas
Quando a cidade se cala
Crescem em mim as paredes
Como redes
E nem as raízes nuas
Dos plátanos, que são meu leito
Entendem por que me deito
Nesse silêncio das ruas.

10.
abri os olhos e trilhei montanhas belas
sentei-me e pintei muitas aguarelas
percorri degraus compridos e brilhantes
dancei com pássaro,
vi mar de diamante:

11.
O nosso jardim
Quando te vi naquele lugar de todos os dias
onde os olhares são imensos e buscam alegrias.

Parecias uma flor com falta de água
à espera do vaso sem mágoa.
Seguimos lado a lado com vontade de entrar no jardim
e escolhemos o lugar que nunca tivesse fim.

12.
retoca a porta no vitral
e olha que lindos seios
ninguém esperas, o corpo
nu contra o espelho
o beijo dado no beijo
no espelho tudo se passa
na entrada, segura agora
os seios e nada muda
vem a canção no CD
o riso de alegria

avança depois para a janela
e enrola-te no reposteiro
ninguém te vê
mas tu vês toda a gente

13.
Agachada estava esta planta.
A luz a fez crescer
O dia a pôs a florescer
E ao mundo seu caule se levanta
Espanta,
O teu brilho!
Olhos de um velho para o seu filho…

14.
Raios secretos percorrem a cidade
desertificada. Esticam-se pelas ruas,
tocam em silêncio a raiz do plátano

Sonhos coloridos exuberam na paisagem:
letras pairam sem que palavras alcancem
o solo, pássaros dançam nos céus, olhares
desordenados acompanham voos elétricos
em busca da alegria

Desembaraçados, os fios de instabilidade
desobrigam luz e trevas. A chuva fixa no céu
acalma a cena e novos caules se erguem.
distante fiquei do chão.

15.
Que lamento doce
que me assoma aos lábios
e me deixa tonto
de deliquescer.
Minha terna amada
minha terna amante
minha triste amada
minha triste amante
aninha-te aqui
bem dentro de mim.
Deixa-te ficar
aqui para sempre.
Canta-me cantigas
de terra distante
para adormecer
para me adormecer.

16.
Cresci equívoca numa tessitura doiro
— invisível armadilha
de perecíveis deslumbramentos.
Como prender nas asas das mãos
os voos de todas as aves,
se das raízes dos plátanos
a ponta dos dedos
é espinho ferido
na última gota de amor.

LEGENDA
1. JFernandes
2. José Gil
3. Sonia Regina
4. José Gil
5. Hélio Loureiro
6. JFernandes
7. Ana Maria Costa
8. Sonia Regina
9. Maria João de Carvalho Martins
10. Eliana Mora
11. Alfredo Correia
12. José Gil
13. José Fernando Pais Neto
14. Sonia Regina
15. Geraldes de Carvalho
16. Bernardete Costa

1 comentários:

Ana Maria Costa disse...

A poesia encandeia leituras e formas diferentes de pensar, logo de falar também. Nela também se ouve a escutar sons, letras, silêncios transfigurados e almas a conhecer. no inicio, era só um egoísmo, depois passou a causa, agora é descobrimento nos outros o que há em mim.
Obrigada a todos que fazem com que amantedasleituras exista sem mim como Era.