Boas Leituras

" A sombra é sempre escura até mesmo a dos cisnes." Eugénio de Andrade



Quarta-feira, 3 de Agosto de 2011

DESAMBIGUAÇÕES

Texto Vencedor do Desafio de Prosa de Março da lista AMANTEDASLEITURAS

DESAMBIGUAÇÕES

Sabes, pá? Cada um de nós vive como animal cujo dono faleceu. Vagueia pelas horas à procura do seu odor, do seu carinho, do seu sustento. Dizem que «o cão é a memória do dono» e é, por isso, que se deita junto à tumba, à espera que ele o chame, e ali se fica, dias a fio, mesmo sem comer. (Quem sabe o que pensa, que caçadas sonha, que pinturas lhe enchem os olhos — que memórias.)
Eu tive um cão. Bem, não era bem um cão, era uma cadela, negra como a noite. Já morreu. Foi atropelada. Morreu. Andava por lá, dias a fio, sem-rei-nem-roque. De vez em quando, era assim. Fartava-se da voz, do chamamento, da comida — fartava-se da casa e de tudo quanto ela lhe oferecia — e partia à aventura. Andava por lá longos dias, em alcateia. Depois, acabava por aparecer, há espera de um “mimo” e de encher a barriguita. Fartava-se. Partia.
Tu sabes como é duro partir sem despedida. Aliás, era quando mais precisava de ti que tu não estavas. E eu não sabia que tinhas ido para fora.
A minha cadela, negra como a noite, era assim. Partia. Virava costas e ia-se embora, simplesmente. Mas sabia onde me deixara e voltava, antes de correr para mais uma aventura.
Dizem que «os cães são a memória dos donos» e que «os corvos são os guardiães da alma». (Até parece aquele filme que passou há anos, lembraste?!)
Mas que é o homem quando os seus animais morrem? É um solitário que vagueia pelas horas… assim… sem mais?…
Tantas vezes enxotamos quem nos quer bem; aborrecemos e fazemos com que parta quem muito queremos que fique — não é!
Ela vinha morro abaixo, quando a vi, naquela manhã húmida, de meados do Outono. Vinha guiada por cheiros conhecidos. Vinha como o «filho pródigo» que regressa a casa: cabeça baixa, andrajoso, mal nutrido. Trazia um olhar chorão, um arrependimento quase. (Que era a forma que tinha para me derreter o coração a não lhe dar uma enxotadela por infidelidade.)
Tu sabes como é, quando os olhos daqueles que amamos nos fitam com aquela luz morna que nos envolve numa marinada e, em poucos segundos, nos destempera o aço — cozinha-nos, come-nos. É como o adro da igreja, frio e arrepiante durante o ano quase todo, mas vem a festa da Vila, engalana-se de cores, música, vozes… e lá se vai toda aquela raiva de o achar inútil e o querer encher de armários, para gente pobre, engavetando-a em torres de cimento — e ficamos mais leves de consciência!…
Mas voltemos à minha cadela, negra como a noite, e àquele dia negro como ela.
Tu sabes como o desejo de exclusividade tem sido pai dos maiores excessos. Dirás: «não é de agora, sempre assim foi.» E eu responderei: «sim, eu sei que é». Contudo, quando as coisas nos chegam vindas de longe dos nossos sentimentos, não são como as nossas. Só são nossas quando o sentimento corrói a alma, como um ácido o chumbo e o calor o estanho. São nossas quando o fogo nos toca os dedos e a alma grita — de eloquência e enlevo, de aborrecimento e dor.
Pois é verdade. Ela descia o morro e eu tomava um café quando, pressentindo movimento pelo canto do olho, a reconheci e chamei.
São belos os momentos em que a amizade faísca. Um levantar de cabeça, um espetar de orelhas, uma corrida feliz e um salto de alegria. (Como fazia com qualquer um que lhe desse atenção; saltava e saltava e saltava… e lambia e lambia e lambia… e queria todas as festas do mundo só para ela — era rainha de um reino livre; e só eu, o dono, o não entendia. Era o reino dela. Ela soberana sobre todos e tudo. Soberana e livre. E, para mim, no meu enorme egoísmo — infiel. Maria-vai-com-todos.)
Por fim, sentou-se a meu lado e acabei o meu café. Não era a primeira vez. De outras, tirava o cinto das calças, colocava-lho no pescoço e levava-a. (Que ela, estroina como era, não sabia andar na estrada. Viesse carro ou não, ia e atravessava, a maluca.)
Naquele dia, não. Ali. Lado a lado como um casalinho que se passeia alegre. Eu e ela a caminho do escritório. Um paspalho e uma botifarras lavradeira, de olhar faiscante, língua de fora e nenhum peso por há mais de quinze dias não dar a mama aos filhos que deixou; a trampolineira, sem qualquer saudade ou cuidado, por ali se ficou, a enroscar-se por todos os passantes, enquanto eu descia ao escritório para mais um dia de trabalho.
— Levá-la a casa? Não! Os pequeninos cachorros ficaram bem e, ela, na garagem a só com eles, desnaturada como o seu comportamento dizia nos últimos meses — nem pensar.
Tu sabes bem, como a protecção para uns nos torna desleixados para outros. É o despeito. É a falta de fiabilidade. A inconstância afasta-nos como ímãs de polaridades iguais. Afinal, não andamos toda a vida à procura dessa segurança de colo? A minha cadela, negra como a noite, não tinha nenhuma das virtudes que se dizem ser de mulher de bem. Era livre e libertina q.b., indomável. A princípio, para tentar quebrar-lhe a guelra, ainda tentei a coleira e o trambolho, a corrente corrediça, etc.. Mas quê… um estoiro de besta, força bruta no pescoço e nada resistiu. A garagem, ampla, foi o último retiro. Dali até ao pessegueiro. Do pessegueiro até ali. Junto às raízes deste, cavou a toca onde teve as crias. Dez. Quase aos pares, cada de seu pai. A leviana. Que se algum lhe deu na canastra enquanto estava de guarda, à coleira, foi porque não se atirou a ele, com unhas e dentes e o escorraçou, e permitiu que o invasor usufruisse dos seus favores. E agora, eis como a fementida trata os filhos.
Naquela manhã tudo podia ter corrido de modo diferente. Fosse o animal como as pequenas manchas brancas e não aquele longo pano negro, e tudo poderia ter sido diferente.
Sabes bem que não é líquido ser o longo lençol da alma imaculado. A vida tem suas aventuras que nos fazem dormir ao relento e, aqui e ali, uma manchazita aparece. Não é mal que faça ao mundo, dormir ao relento. Há idades para tudo. Para ser lavado pela mãe. Para querer ser gente autónoma, tempo de folguedos e tempo de responsabilidade. A minha cadela, negra como a noite, não cresceu o suficiente para o saber. Era uma mãe criança, ainda… e não tinha nem mãe nem avó que lhe ensinasse a tomar conta, a ser responsável. A minha cadela era só uma aprendiz da vida.
Todos temos um momento de perdição. Atinge-nos como uma distracção ou um medo. É um raio escuro que nos atravessa e nos desliga o sentido de sobrevivência. Apaga-nos os instintos de defesa. Impele-nos para a frente como besta que se sente encurralada. São os momentos de ser uma vez. Ímpar. Uma vez e nunca mais. Só aquela, que não há mais para viver. Só aquele que, depois dele, não há vida.
Há vezes em que adivinhamos a notícia pelo rosto de quem no-la vem dar e enquanto se aproxima. Não é exacto, é a intuição. Antes do título, já o nosso coração se encontra na leitura das entrelinhas, e o ardina berra: «A tua cadela está a cambalear. Não se segura em pé. Arrasta-se». Antes de ver, já os olhos chegaram ao fim da notícia. Não é exacto, é o instinto. E quando vêem, já leram toda a página e lhe deram o epíteto final.
Só os sentimentos crescidos têm o efeito de perdurar no tempo. Só os sentimentos do homem, esbugalhados por uma razão abstracta, não penetram — como os sentimentos de instinto que ligam o para sempre à sua amizade.
Dizem que «os cães são a alma do dono», mas que alma tem o dono quando sobrevive ao animal?!
Ajeitamos cemitérios toda a vida. Cemitérios de insatisfações, de caminhos mal trilhados, de desejos empobrecidos, de manchas de relento no lençol da alma. Transportando no peito a própria laje que contém todos os nomes… — como flores que vamos colocando no sentimento dado aos que não tornaremos a ver, olhos nos olhos, nesta caminhada.

FIM




Júlio A. B. Fernandes

4 comentários:

Pedra do Sertão disse...

Pra lá de sensível seu texto!

Júlio disse...

Agradecido pela leitura e comentário.
Abraço fraterno.
Júlio A. F. Fernandes

Denilson disse...

Belíssimo conto. Ou seria uma crônica? O que importa é que a cadela negra como a noite é pra lá de cativante. Parabéns, Júlio!

jfraguas46 disse...

Agradecido Denilson. Vindo de si, é um comentário que prezo.
Abraço
Júlio