Foto: 'Small notes of forest', de Carlos Carreto
DESAFIO DE POESIA [2] Ago.2011
Mote: A morte da folha
A folha, que de verde amarelou
Já não se presta mais à fotossíntese
E o ramo, que no colo a embalou
Suspira ao ver que a amiga murcha e tinge-se
Anunciando o fim do seu serviço
Pois já não tendo o brilho nem o viço
Das jovens verdejantes que ladeia
Urgia descansá-la da peleia
Nesta hora solene e derradeira
A brisa sopra o alento refrescante
E a folha ensaia a dança costumeira
O ramo se despede, reticente
E toda a copa cala nesse instante
Enquanto a folha voa… simplesmente.
Denilson Neves
in: Antologia Amante das Leituras 2010.
1.
eis quanto resta ao idílio esmorecido
à folha que voa pelo pensamento
com liberdade e cores sempre apetecidas
a saudade morosa, o desejo esquecido
olhando as luzes do acampamento
vagabundeando nas ruas adormecidas
onde se juntam as pontas do que foi vivido
reservando às sombras quanto há de caído
a letra que brame presa à memória!
2.
mas a folha, no solo transformada,
enriquece, já húmus, a terra seca
decomposta, aumenta a quantidade
e a qualidade da colheita.
3.
A folha voa no Soneto
Outono
pousa chão na frase.
4.
Na terra a secura abrasa a folha.
A morte vincula-se nas nervuras e arde
no húmus, sal e mineral da árvore, na cúspide
alegoria de imolação ardente.
O sol já tocha figura na morte como espectro de vida nascente
no registo da rocha.
Reescrita a giz o fracasso
no sangue e seiva na verbena do animismo.
Vegetal e animal passo a passo; feliz folha viva ou estrela cadente
para além da morte a sagrar-se palavra
a ressurreição da folha
no fóssil mineral das tumbas.
Somente na morte os fósseis
a perpetuar viagens fecundas no traçado linear das folhas;
folhas ou rolhas nas bocas a fertilizar abismos
que as vidas prenunciadoras são.
A folha na morte na adoração da árvore
que uiva a dor do golpe.
Ente folha, também árvore.
Ente vida, também morte.
5.
rasgo a folha do ventre
onde o umbigo seja
bem escuro no fôlego
mais alto ou mais largo
o pêssego azul do jazz
espero-te na outra esquina
do bairro para um cigarro
traz o instrumento a
relva está curta de sentimentos
agosto bate e bate na batida
de agosto visível onde a pessoa
constrói o outro lado das forças
6.
a escrita ressuscita o esquecimento
e o medo da folha imobilizada
na terra ardente e vazia de relva
é o último gesto das mãos despertas
que transformam a morte e avançam
a seiva lateja sem envelhecer,
nas nervuras da folha,
como o sangue na carne em júbilo
com força retorna a deusa morta à vida
e nenhuma agonia na sombra do enigma
ofusca seu renascimento.
7. com ar de lótus
folha
filha do sol
se equilibra como em fio de cobre
[ar singelo
e o leito de seu voo
no silêncio
umedece o vento
a fermentar o sal
da eternidade.
8.
pela folha iremos enlaçados na palavra
cintilantes indomáveis veraneantes
esplendorosos de vida pelas cordilheiras
da nossa pátria à beira água alevantada
no fio da espada gloriosa de nossos avós
seremos como escrituras soltas pelas horas
com cartas de astros a chegar à voz
e seres marinhos acompanhando as barcas
seguiremos pelo caminho justo e verdadeiro
levando na mão um bordão de salgueiro
e a esperança do sal no bornal enrolada
pregados à sombra não há outro caminho
e esse no-lo impôs o sol como destino
de folha voando morta… e enfeitada
9. A folha
A folha só é folha
se não falha
– que deus
me valha –
A folha era folha
mas caiu
foi prá puta
que a pariu.
A puta que a pariu
é uma beleza
costumamos chamá-la
natureza.
E a natureza acolheu a folha
com a sua
costumada
gentileza.
Fez dela uma flor
mas não me satisfez
porque era verde
e verde não é cor
de flor.
O que farei com ela
gritaria
mas ninguém
a ouviria.
Então a natureza desistiu
fez uma nova folha
e então
adormeceu
– pra não dizer
dormiu.
Ps:
Mas
depois do inverno
virá o verão
– para alguns, não.
10.
Fértil o chão
Que ampara a folha silente
E se torna ordem, na desordem de todas as coisas
Que se julgam morrer
Antecipadamente.
LEGENDA
1. JFernandes
2. Sonia Regina
3. Ana Maria Costa
4. Bernardete Costa
5. José Gil
6. Sonia Regina
7. Eliana Mora
8. JFernandes
9. Geraldes de Carvalho
10. Maria João C. M.

2 comentários:
Por vezes, ando por aqui... mãos nos pontos e, caminhamos perto do olhar.
Eu ando por onde a Poesia se semeia. (Maria José Limeira)
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