Boas Leituras

" A sombra é sempre escura até mesmo a dos cisnes." Eugénio de Andrade



Quarta-feira, 17 de Agosto de 2011

DESAFIO DE POESIA [13]

Foto daqui


DESAFIO DE POESIA




MOTE:

A carne de mim
deste meu corpo, dou.
Porque sou a carne.
E o que dela fica
depois de a dar
também é teu.
Indivisível sou
por isso se me queres
estou aqui, inteiro.
Ainda que pequeno e só
sou grande como o mundo
e o mundo cabe em mim
e em mim se esgota.
– Veremos isso, sim,
quando eu morrer –

Geraldes de Carvalho, 23 de Abril de 2010





1.



Gastaram-se meus gestos e meus sentidos

em sedosos estuários

e de tudo, somente as saudosas carícias,

as largas palavras e as amplas sombras

abarcando o território do mundo

me podem devolver a parte em que nele apoiei

a vida

e no íntimo como hoje vêem meus olhos

sentir ainda esse Deus

e amá-lo no frémito desta penumbra

onde o enganado se entrega despedida.







2.



a terra é minha alma

meu corpo — Flor

pousa solidão (in)visivel.







3.



doi a dor que torce

no torço do corpo

na tábua no meio

do mar.

doi a casa sobre

o lado esquerdo



Deus chegará com

o sol brando da mesma

palavra, doi o sol no

fim da tarde entre os

teus cabelos doridos



não doi o que ainda

doi antes da madrugada



toca o vento no assobio

do teu umbigo e Deus

regressa onde se lê







4.



Não digo a carne ou o mundo e retorno a eles.

Não é uma doação. Aqui estou abraçando

o território que é meu e não se perdeu nas sombras.

A minha alma dou à terra, assim como meus braços

e passos. O sol é brando e o vento assovia no meu

caminho de palavras. Conquistei-as.

Com elas fiz-me pedra e ela agora vive fora de mim.

A ela me ligo e ela a mim se liga — é o meu maior amor.

As palavras o sabem.







5.



Tempero esta carne flácida e gorda com ervas da minha horta imaginária que a vida me planta ao acaso,

sem virtude, deixo-me cozinhar em lume brando no destempero da existência.



O fio da navalha corta fatias generosas em cada dia que passa fazendo-me cada vez mais recortado e menos apetecível

já se foram as partes nobres

sobram pedaços com gordura acumulada de saber que a poucos importa

quem quer saber de um corpo desmanchado de uma vida sem sabor que se azeda ao longo do tempo?

Por quanto tempo não sei!



Quando partir tenho para entrega às lavras da terra fria doses de untuosidade gorda pouco suculenta

as melhores partes foram comidas ao longo da vida, gastas na mesa do tempo por vezes pouco vivido

muitas vezes desperdiçadas, muitas vezes mal servidas.



Quem quererá este pedaço indigesto num menu servido?



Ninguém!



Se nem eu me apeteço! Se nem eu me encontro no gosto que já tive.







6.



Indecência de cão

o sorriso é como uma janela.

amplo de luz. vidrado de cristal. primavera.

o sorriso verte no orvalho a ternura

dum arco íris no som da palavra ausente.



o sorriso,

ar e vento e sol e chuva no vulcão do presente

na raiz do coração, na haste do amor;

sorriso na transparência dos oceanos,

que se separam da alma e se servem na taça

vazando licor…



o sorriso

na palpitação de nuvem, a deslaçar trama,

a acender a alegria de ocasião, a fecundar seio imberbe

… ou lágrima de crocodilo,

o sorriso a voar como papagaio perdido

ou borboleta morta no jardim…



como saber

se em mim se finge, e nas sandálias que trago

só encontro indecência de cão.







7.



Fibra

a fibra do painel escreve

as letras leves e de carne

nada bate na era do silêncio



um dia o sol chega contigo e

não quero mais nada

tudo é natural tudo é tudo



como retirar as vírgulas

os pontos no hospital



vírgula não há quando

abrem os pulmões

e chega aos pulsos

o dia seguinte, morde

as unhas, deixai

o tempo roer as

unhas dos nossos dias.







8.



Uma história dentro de outra história

No corpo protejo o voo

de um pássaro rubro

num fio de luz desenhado

que dia a dia, passo a passo

conquista o que nunca tem

como deveras conquistado.

Sofre e sangra porque é carne

igual em toda a humanidade

e se sabe tão diferente

dentro de toda essa igualdade.

Um dia será apenas

grão de pó dentro da memória

principio e fim, linha finita

névoa desfeita sem glória

como a rima dentro desta escrita,

uma história dentro de outra história.







9.



Por vezes meu coração pára

como quem espera saber

se há alguma coisa mexendo

para além dele.



Ele escuta, atento

o bru-ha-ha

que se ouve em volta

sem nada perceber.



E ali fica parado, feito tonto

sem ouvir as vozes que estão sob a superfície das coisas vãs

que captam sua atenção.



Ouve aqui meu burro

coração:



Se te não chega o palpitar das coisas

recorre mais acima.

Ouve o que mexe na minha cabeça

que é aí que tu estás

ou devias estar

meu coração.







10.



Anseio-te,

Carne viva, consciente tentação,

És tu quem me enlouquece e sacia.

Nas tuas entranhas encontro o refúgio da matéria,

Do latejar da vida até as cinzas da carne sofrida.

Entrego-te o corpo e fico com a alma

E nada mais me resta no limiar da vida.







11.



amanhã se conseguir

abrirei título novo ao pôr do sol

espalharei nas brasas

manhãs de orvalho e ventanias

areias deslocadas e velas reflectidas

na viagem dizes: não ousarias?!



se amanhã conseguir mover o tempo

com duas letras silvando como vento

entre dentes

inventarei nova broca nova fissura

antiga toca

com seu perfume de maresia ocre

e cantarei de novo os espaços

onde os homem são seres alados

e a terra é o seu voo de batente



direi ao umbigo do ser prostrado

ao assobio primeiro de um sol salgado

e no vasto areal abrirá um salgueiro

onde chegar é sempre ser primeiro oiro

no curso desse rio amado



inventarei a nota inversa daquela pedra

ali imersa onde o nome foi a promessa

do novo título

ao pôr do sol.







12.



divido o segundo no pêssego

todas de areia, hoje mais suor

os pêssegos negros e violeta

entre as rochas é do creme



divido a carne com os olhares

toco o mamilo no lugar certo

e chego devagar os lábios



mais concentrado colocas os

pepinos nos olhos ,é fresco

manhã cedo.



chego á praia ás 6,30h

está fresco, água fria

hoje estava já calor



a carne do animal bonito

coloca-se na rocha para

saltar para o mar, vibra

e corre na praia e volta



a carne negra espera-me







13



na mesa, o lugar vago

ergo de saca ficado almoço.



permeio-me dentro do tento

o olhar vago (quase teatral dum leme)

o sentido difuso do me ser afim



um próximo acolá no sentido dos pés buscantes



olho-te na pedra alta.

controlo a frequência do abismar

deste salto pernalta



quem me pode com lucidez?

faço-me! e respondo-me: inclinada

reverência…







LEGENDA

1. JFernandes

2. Ana Maria Costa

3. José Gil

4. Sonia Regina

5. Hélio Loureiro

6. Bernardete Costa

7. José Gil

8. Maria João C. M.

9. Geraldes de Carvalho

10. Paula Gonçalves

11. JFernandes

12. José Gil

13. JFernandes

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