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DESAFIO DE POESIA
MOTE:
A carne de mim
deste meu corpo, dou.
Porque sou a carne.
E o que dela fica
depois de a dar
também é teu.
Indivisível sou
por isso se me queres
estou aqui, inteiro.
Ainda que pequeno e só
sou grande como o mundo
e o mundo cabe em mim
e em mim se esgota.
– Veremos isso, sim,
quando eu morrer –
Geraldes de Carvalho, 23 de Abril de 2010
1.
Gastaram-se meus gestos e meus sentidos
em sedosos estuários
e de tudo, somente as saudosas carícias,
as largas palavras e as amplas sombras
abarcando o território do mundo
me podem devolver a parte em que nele apoiei
a vida
e no íntimo como hoje vêem meus olhos
sentir ainda esse Deus
e amá-lo no frémito desta penumbra
onde o enganado se entrega despedida.
2.
a terra é minha alma
meu corpo — Flor
pousa solidão (in)visivel.
3.
doi a dor que torce
no torço do corpo
na tábua no meio
do mar.
doi a casa sobre
o lado esquerdo
Deus chegará com
o sol brando da mesma
palavra, doi o sol no
fim da tarde entre os
teus cabelos doridos
não doi o que ainda
doi antes da madrugada
toca o vento no assobio
do teu umbigo e Deus
regressa onde se lê
4.
Não digo a carne ou o mundo e retorno a eles.
Não é uma doação. Aqui estou abraçando
o território que é meu e não se perdeu nas sombras.
A minha alma dou à terra, assim como meus braços
e passos. O sol é brando e o vento assovia no meu
caminho de palavras. Conquistei-as.
Com elas fiz-me pedra e ela agora vive fora de mim.
A ela me ligo e ela a mim se liga — é o meu maior amor.
As palavras o sabem.
5.
Tempero esta carne flácida e gorda com ervas da minha horta imaginária que a vida me planta ao acaso,
sem virtude, deixo-me cozinhar em lume brando no destempero da existência.
O fio da navalha corta fatias generosas em cada dia que passa fazendo-me cada vez mais recortado e menos apetecível
já se foram as partes nobres
sobram pedaços com gordura acumulada de saber que a poucos importa
quem quer saber de um corpo desmanchado de uma vida sem sabor que se azeda ao longo do tempo?
Por quanto tempo não sei!
Quando partir tenho para entrega às lavras da terra fria doses de untuosidade gorda pouco suculenta
as melhores partes foram comidas ao longo da vida, gastas na mesa do tempo por vezes pouco vivido
muitas vezes desperdiçadas, muitas vezes mal servidas.
Quem quererá este pedaço indigesto num menu servido?
Ninguém!
Se nem eu me apeteço! Se nem eu me encontro no gosto que já tive.
6.
Indecência de cão
o sorriso é como uma janela.
amplo de luz. vidrado de cristal. primavera.
o sorriso verte no orvalho a ternura
dum arco íris no som da palavra ausente.
o sorriso,
ar e vento e sol e chuva no vulcão do presente
na raiz do coração, na haste do amor;
sorriso na transparência dos oceanos,
que se separam da alma e se servem na taça
vazando licor…
o sorriso
na palpitação de nuvem, a deslaçar trama,
a acender a alegria de ocasião, a fecundar seio imberbe
… ou lágrima de crocodilo,
o sorriso a voar como papagaio perdido
ou borboleta morta no jardim…
como saber
se em mim se finge, e nas sandálias que trago
só encontro indecência de cão.
7.
Fibra
a fibra do painel escreve
as letras leves e de carne
nada bate na era do silêncio
um dia o sol chega contigo e
não quero mais nada
tudo é natural tudo é tudo
como retirar as vírgulas
os pontos no hospital
vírgula não há quando
abrem os pulmões
e chega aos pulsos
o dia seguinte, morde
as unhas, deixai
o tempo roer as
unhas dos nossos dias.
8.
Uma história dentro de outra história
No corpo protejo o voo
de um pássaro rubro
num fio de luz desenhado
que dia a dia, passo a passo
conquista o que nunca tem
como deveras conquistado.
Sofre e sangra porque é carne
igual em toda a humanidade
e se sabe tão diferente
dentro de toda essa igualdade.
Um dia será apenas
grão de pó dentro da memória
principio e fim, linha finita
névoa desfeita sem glória
como a rima dentro desta escrita,
uma história dentro de outra história.
9.
Por vezes meu coração pára
como quem espera saber
se há alguma coisa mexendo
para além dele.
Ele escuta, atento
o bru-ha-ha
que se ouve em volta
sem nada perceber.
E ali fica parado, feito tonto
sem ouvir as vozes que estão sob a superfície das coisas vãs
que captam sua atenção.
Ouve aqui meu burro
coração:
Se te não chega o palpitar das coisas
recorre mais acima.
Ouve o que mexe na minha cabeça
que é aí que tu estás
ou devias estar
meu coração.
10.
Anseio-te,
Carne viva, consciente tentação,
És tu quem me enlouquece e sacia.
Nas tuas entranhas encontro o refúgio da matéria,
Do latejar da vida até as cinzas da carne sofrida.
Entrego-te o corpo e fico com a alma
E nada mais me resta no limiar da vida.
11.
amanhã se conseguir
abrirei título novo ao pôr do sol
espalharei nas brasas
manhãs de orvalho e ventanias
areias deslocadas e velas reflectidas
na viagem dizes: não ousarias?!
se amanhã conseguir mover o tempo
com duas letras silvando como vento
entre dentes
inventarei nova broca nova fissura
antiga toca
com seu perfume de maresia ocre
e cantarei de novo os espaços
onde os homem são seres alados
e a terra é o seu voo de batente
direi ao umbigo do ser prostrado
ao assobio primeiro de um sol salgado
e no vasto areal abrirá um salgueiro
onde chegar é sempre ser primeiro oiro
no curso desse rio amado
inventarei a nota inversa daquela pedra
ali imersa onde o nome foi a promessa
do novo título
ao pôr do sol.
12.
divido o segundo no pêssego
todas de areia, hoje mais suor
os pêssegos negros e violeta
entre as rochas é do creme
divido a carne com os olhares
toco o mamilo no lugar certo
e chego devagar os lábios
mais concentrado colocas os
pepinos nos olhos ,é fresco
manhã cedo.
chego á praia ás 6,30h
está fresco, água fria
hoje estava já calor
a carne do animal bonito
coloca-se na rocha para
saltar para o mar, vibra
e corre na praia e volta
a carne negra espera-me
13
na mesa, o lugar vago
ergo de saca ficado almoço.
permeio-me dentro do tento
o olhar vago (quase teatral dum leme)
o sentido difuso do me ser afim
um próximo acolá no sentido dos pés buscantes
olho-te na pedra alta.
controlo a frequência do abismar
deste salto pernalta
quem me pode com lucidez?
faço-me! e respondo-me: inclinada
reverência…
LEGENDA
1. JFernandes
2. Ana Maria Costa
3. José Gil
4. Sonia Regina
5. Hélio Loureiro
6. Bernardete Costa
7. José Gil
8. Maria João C. M.
9. Geraldes de Carvalho
10. Paula Gonçalves
11. JFernandes
12. José Gil
13. JFernandes

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