Avançava cosido à parede, evitando as câmaras de segurança e o foco zenital da iluminação exterior, que abria clareiras de luz nas trevas da noite. O som de passos levou-o a tomar por esconderijo um caixote do lixo. Dois homens de bata branca atravessaram velozmente a viela. Despistara-os, por agora. Deixou o telemóvel, que se esmigalhara ao saltar do primeiro andar, no caixote do lixo. Levantou a gola do casaco e enterrou mais fundo o chapéu na cabeça, internando-se na multidão, sempre com os olhos fixos no chão. Apesar de tomarem diferentes direcções, toda a gente parecia dirigir-se ao mesmo lugar. O propósito último de toda aquela azáfama escapava-lhe. Gostaria de compreender a determinação da massa anónima que se deslocava dum bloco para o outro, mas perdera definitivamente essa oportunidade. Ao passar por uma árvore, já a poucos metros do portão para a rua, viu um movimento suspeito pelo rabo do olho. Um vulto branco voou sobre si, atirando-o ao chão. “Apanhámos o médico!” Gritou o outro evadido da ala de segurança máxima. Todos os loucos saltaram sobre si, arreganhando os dentes ameaçadores. Num último laivo de consciência, vislumbrou fugazmente o agora intransponível portão, impossibilitado de dar à cidade adormecida o alerta sobre o sangrento motim no hospício.
Quanto ao texto intitulado "Clandestino", o tema é fértil, embora recorrente, e a narração é rápida, sem digressões. À medida que a situação vai sendo narrada, a minha curiosidade aumenta, assim como o desejo de chegar ao desfecho, onde se resolve o nó da acção. Este conto tem duas qualidades que devem estar bem presentes na narração: rapidez e movimento. E a surpresa, que é também um dos segredos do miniconto, não falta, na parte final da história ("...Apanhámos o médico!..."). Não se trata de um paciente em fuga, como pensei, no início, mas sim do próprio médico que, ao ser "apanhado" pelos "loucos", ficou "impossibilitado de dar à cidade adormecida o alerta sobre o sangrento motim no hospício".
Se a palavra "psiquiatria" significa "arte de curar a alma", então este médico não conseguiu curar as almas dos doentes, era o único louco do hospício, ou...exagerou no tratamento da "loucura" como o Dr. Simão Bacamarte, protagonista do célebre conto "O Alienista", do grande escritor Machado de Assis. Contudo, ele estava coberto de razão, quando concluiu que "quatro quintos da população internada eram casos a repensar". Também a experiência que o psicólogo David Rosenhan orientou, para testar a validade do diagnóstico psiquiátrico, faz pensar, ainda hoje, não é verdade? E ele alerta-nos para o terrível poder da etiqueta ("... A etiqueta muda completamente a percepção que os outros têm do doente marcado como esquizofrénico e de seu comportamento."). De facto, as etiquetas mudam sempre a nossa percepção e falsificam as conclusões a que chegamos...
Como se tudo isto fosse pouco, há também o problema das benzodiazepinas (Halcion, Valium, Librium, etc., etc.), que, a médio ou a longo prazo, criam dependência, agravam as depressões, provocam danos cerebrais e outros, mas continuam a ser tomadas por milhões de pessoas, em todo o mundo.
Pedindo desculpa por me ter alongado tanto, agradeço, a todos, a leitura e os momentos de reflexão que os vossos textos me proporcionaram.
Maria João Oliveira
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Primeiro lugar: Clandestino
Um miniconto primoroso, muito bem escrito, conciso, com um final ainda mais surpreendente do que me fez supor, coisa que eu valorizo muito num conto. E ainda mais num miniconto.
Denilson Neves
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Primeiro lugar para Clandestino. O autor conseguiu, em um texto daquele tamanhinho, dar todo o suspense e mistério dos contos de terror normais. Palmas prolongadas! Fiquei lendo sentada na ponta da cadeira.
Dalva Agne Lynch

3 comentários:
Parabéns pelo primeiro lugar A. M. Catarino.
Participem no desafio de prosa e minicontos da lista amantedasleituras. Perguntem como podem participar!
Aqui ou por e-mail: amsoarescosta@gmail.com
jinhos aos milhões
Muito bom mesmo!!! Parabéns!
Não fosse aquele sempre presente: «quanto tempo falta para ser agora.»
Tenha um bom dia doutor. E ainda bem que não deu o aviso — SOU UM DOS LOUCOS, né!
Abraço fraterno.
JFernandes
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