Boas Leituras

" A sombra é sempre escura até mesmo a dos cisnes." Eugénio de Andrade



Terça-feira, 3 de Agosto de 2010

Texto vencedor do Desafio de Prosa de Junho/2010 (Tema: Mito da Caverna de Platão)


ILUMINAÇÃO

Denilson Neves

“The Matrix is a world pulled over your eyes to blind you from the truth”
“Whath truth?”
“That you are a slave, Neo. Like everyone else, you were born into bondage.”
(Neo and Morpheus in the 1999 film “The Matrix”)


Para você que me lê agora, farei um breve relato da minha última experiência terrena. Estaria mentindo se dissesse que não me agrada recordar a seara humana. Na verdade, tudo agora me parece tão distante que é como se estivesse narrando as aventuras – e desventuras – de um personagem literário. Chega a ser divertido. Depois que se atinge o Todo, fica difícil acreditar que um dia tivemos nome e identidade. Sei que é difícil para vocês assimilarem certos conceitos, presos como estão ao lento passar das horas em seus relógios. Os limites do cérebro humano, sejam temporais ou espaciais, são demasiadamente estreitos para abarcar a grandeza do universo... Mas vou tentar.

Na última vez em que animei um corpo - este ao qual, tecnicamente, ainda me encontro ligado -, tive a sorte de nascer numa família excepcionalmente rica, onde nunca me faltou de nada. Talvez você se surpreenda, mas a verdade é que a comodidade financeira, aliada às inclinações inatas da minha personalidade, acabaram agindo como um catalisador no meu processo de insatisfação. Eu tinha tudo, e ainda assim me faltava algo. Cada desejo satisfeito me levava a outro, e outro, e outro, num ciclo interminável. Entreguei-me aos prazeres do mundo, mas cedo percebi que a voracidade dos sentidos jamais seria saciada. Eu precisava buscar outro caminho.

O gosto pela leitura me levou, naturalmente, a pesquisar nos livros esse não sei quê que me faltava. Identifiquei-me, de imediato, com a filosofia oriental, e passei a ler tudo que encontrava sobre o assunto. Estudei atentamente os ensinamentos dos mestres mais conhecidos da Índia: Buda, Shankara, Patanjali, Krishnamasharya, Sai Baba, Aurobindo, e tantos outros, mas em nenhum deles encontrei as resposta que procurava. Talvez eu não fosse um bom autodidata, pensei, o que me levou a aceitar o primeiro convite para afiliar-me a um grupo esotérico.

Depositei todas as minhas fichas naquela agremiação repleta de buscadores, como éramos chamados. Os objetivos eram ambiciosos, as promessas, tentadoras. Eu participava atentamente das atividades, anotava tudo, fazia todos os exercícios – físicos e respiratórios -, entoava mantras, meditava, não perdia uma palestra sequer. Ansiava por resultados rápidos, mas, ao fim de algum tempo, percebi que nada se modificara. A sensação de incompletude perdurava... acabei desistindo.

Atendendo a novo convite, fui tentar a sorte em uma outra associação que funcionava em moldes parecidos, mas quanto mais eu procurava, mais me perdia. Desperdicei um tempo precioso passando por escolas que se diziam iniciáticas, autoproclamando-se guardiãs de segredos herméticos jamais revelados além das suas fileiras. Pura bobagem! Não passavam de meras repassadoras de ensinamentos de segunda mão. Os mestres me diziam para ter paciência. Era preciso esvaziar a mente para que o novo pudesse acomodar-se, mas a verdade é que saía delas da mesma forma que entrava: vazio.

Felizmente, um dos ensinamentos que me foram repassados acabou se mostrando verdadeiro: "Quando o discípulo está pronto, o mestre aparece". Na verdade, o mais correto seria dizer que quando o discípulo está pronto, o mestre desaparece.

Continuando, estava prestes a desistir, quando Ele me apareceu num sonho. Não tinha forma definida, apenas uma aura de energia que irradiava uma luz violeta, muito suave. Palavras não eram necessárias, pois nos comunicávamos por alguma espécie de telepatia. Pela primeira vez na vida, senti-me verdadeiramente em paz. Na época, confundi aquela sensação com o êxtase dos santos, mas eu estava enganado. Havia muito ainda por descortinar, mas o mais importante eu já sabia.

Ao acordar, ainda trazia comigo aquela sensação boa, embora bem menos intensa. Minha mente racional quase me levou a duvidar da experiência, mas uma forte intuição me convenceu a acreditar. Eu nunca estivera tão lúcido, e sabia, agora mais do que nunca, que a minha sede somente seria saciada bebendo direto da fonte.

Meditei sobre o sonho durante uma semana, ao fim da qual, tinha uma decisão firmemente tomada. Arrumei as malas – na verdade, uma mochila -, raspei da minha conta todo o dinheiro economizado durante anos de mesada, e tratei de me despedir dos familiares e amigos. Achei que seria mais difícil convencê-la, mas as mães conhecem os filhos que têm, e a minha de há muito já sabia que eu não ficaria muito tempo sob a proteção das suas asas. Eu precisava voar mais alto.
Parti, enfim. Como destino, a Índia.

Após aterrissar em Nova Delhi, minha primeira providência foi procurar por um guia. Para minha surpresa, apareceram vários. Aparentemente habituados com este tipo de turismo, todos se apresentavam prontos para me levar aos ashrams mais famosos, onde residiam os mestres mais conceituados no mundo ocidental. Mas não era o que eu procurava. Começava já a desanimar, quando um indiano mirrado, de aparência duvidosa, se aproximou de mim.

- Acho que posso ajudá-lo, senhor.
- Pode esquecer. Não estou interessado nas suas celebridades.
- Entendo. Você procura por um mestre que não esteja estampado em livros ou revistas, correto? Sábia escolha. Como tinha dito, eu posso ajudá-lo, desde que esteja disposto a pagar mais caro por isso?
- E onde reside esse mestre? – Perguntei, vivamente interessado.
- Não existe apenas um, meu caro senhor, mas isso já é informação privilegiada. Se fecharmos acordo, serei obrigado a vendá-lo durante toda a longa viagem, e adianto que ela não será fácil. Somente os mais perseverantes conseguem. É claro que terá de confiar em mim.

Pode parecer loucura, mas resolvi continuar seguindo a minha intuição. Marcamos para o dia seguinte.

Aditya, como ele se dizia chamar, não estava brincando. Foi mesmo uma viagem longa e dura, muito dura. Partimos ao nascer do dia, e após horas dentro de um carro alugado, e outras tantas de caminhada, chegamos aos pés de uma imensa montanha, provavelmente pertencente à Cordilheira do Himalaia. É claro que só soube disso quando começamos a subir.

Ainda era cedo, mas o sol já ardia. Pulávamos de pedra em pedra. Desviando dos arbustos que cresciam entre as rochas, evitávamos as serpentes e escorpiões que, segundo Aditya, ali se escondiam. Por uma hora e meia, aproximadamente, prosseguimos na perigosa escalada. De vez em quando, ouvia uma pedra rolar montanha abaixo. Segundo Aditya, polidas e arredondadas pelas chuvas e pelo vento dos séculos, muitas delas estavam soltas.

Paramos quando uma parede rochosa nos bloqueou o caminho. Não havia como transpô-la apenas com as varas de bambu que tínhamos nas mãos. Seguimos por uma trilha, contornando a grande rocha. Só então, Aditya desvendou-me os olhos. De onde estávamos, não adiantava olhar para baixo. Rochas e arbustos, espalhados por todos os cantos, encobriam a visão.

Deixei cair o fardo que carregava nas costas e segui Aditya através de uma abertura mais ao fundo, oculta pelos arbustos mais densos. Era tão pequena que tivemos de nos abaixar para passar. Do lado de dentro se abria um salão relativamente espaçoso, fracamente iluminado por lamparinas apoiadas em prateleiras cavadas na rocha.
Impressionado com a singularidade do local, custei a perceber o que lá havia de mais insólito. Sentados na posição do lótus sobre folhas verdes espalhadas ao chão, meia dúzia de homens meditavam com uma profundidade que eu nunca antes presenciara. Estavam todos voltados para a mesma direção, de olhos bem abertos e fixos nos olhos de outro homem, que se destacava apenas pelo fato de estar de frente para eles.
Abaixando a voz, Aditya me informou que o homem para o qual todos os olhares convergiam era o grande Mestre do qual havia me falado. Os demais eram seus discípulos.

- Qual o nome dele, Aditya?
- Isso ninguém sabe. Os grandes Mestres não são conhecidos por nomes.

Reparei que todos, incluindo o Mestre, usavam uma tanga, tendo uma manta alaranjada, semelhante à dos budistas, caída sobre os ombros. Entretanto, Aditya assegurou-me que nenhum deles era adepto de qualquer denominação filosófica ou religiosa.

- Mas como não, Aditya? Eles não estudam os Vedas? Nenhum texto sagrado?
- Não. Nenhum.
- Quer dizer que os ensinamentos são passados oralmente?
- Também não. Não existem ensinamentos a serem passados, meu jovem.

Era a primeira vez que Aditya me chamava assim. Olhei para ele e notei uma transformação. Seus olhos brilhavam de forma diferente. Eu não estava diante do mesmo homem que me trouxera. Perplexo, perguntei-lhe como a coisa funcionava.

- É muito simples. Você só precisa se sentar e fixar os olhos do Mestre. Apenas isso.
- Apenas isso? E o que acontece depois?
- Tudo. Ou nada. Depende exclusivamente de você.

As perguntas começaram a fervilhar, mas eu sabia que não deveria lhes dar vazão. Intuitivamente eu percebia que estava adentrando um universo novo, em que tudo à minha volta poderia não ser o que parecia. Urgia concentrar-me e domar as flutuações da minha mente questionadora. Eu precisava de foco.

Dirigi um último olhar para Aditya, mas não o encontrei. Procurei por ele do lado de fora da caverna, chamei o seu nome, e nada. Corri por todos os lados, mas nem sinal dele. Já era noite, a temperatura tinha caído abruptamente, e eu estava sozinho.
Em dado momento tive a possibilidade de olhar para baixo, e mal pude acreditar no que vi. Lá em baixo, pessoas, animais e até casas pareciam formigas. Assustador... constatar que ainda poderíamos ter subido muito mais. Acima, a perder de vista, uma sucessão de picos cobertos de neve furava o céu.

Teria entrado em pânico se as últimas palavras de Aditya não me socorressem: “Tudo. Ou nada. Depende exclusivamente de você.” Eu não tinha chegado até ali por nada.

Decidido, tremendo de frio, retornei à caverna. Os discípulos e o Mestre permaneciam nas mesmas posições, inacreditavelmente confortáveis sobre o chão duro. Não davam sinais de sentir frio, sede ou fome. Também não davam pela minha presença. Era como seu eu não estivesse ali. Tive a impressão de que não abalaria a placidez daqueles rostos nem mesmo de berrasse os piores palavrões. Como era possível?

Enquanto pensava nisso, reparei que havia uma folha vaga ao lado de um dos discípulos. Sobre ela, uma tanga e uma manta laranja. Como não notara isso antes?
Olhei para o Mestre e percebi um brilho de incentivo em seu olhar, o que só reforçou a minha decisão. Sem mais hesitar, troquei de roupa e assumi o lugar que parecia ter sido reservado para mim. Cruzando as pernas em posição de meditação, preparei-me para fixar os olhos do Mestre.
Foi mais difícil do que eu esperava. Intuitivamente, eu sabia que aqueles olhos devassariam a minha intimidade, e não havia como não me envergonhar diante de tanta grandeza. Eu estava perante um Santo.

Após algum tempo, criei coragem e finalmente contemplei aqueles grandes olhos negros. Após um tempo que não sei se curto ou longo, a mágica aconteceu. Meus olhos desanuviaram-se, e o cenário à minha volta começou a se desvanecer. De repente, tudo ficou muito claro, e eu finalmente compreendi...

Como expressar em palavras o que aqueles olhos me descortinaram? Descrever o não-conhecido por meio do conhecido, quando o Todo ultrapassa a soma da partes? Poderei dizer que a vida do Mestre se estende muito além dos nossos limites? Que ele vive num mundo real e bem diferente do nosso, que não está sujeito a tempestades e mudanças? Não, não há como. Só posso dizer que fui tomado por uma quietude e um sentimento de felicidade inexprimível. Um estado de paz onde não há a intromissão da mente. Estava certo de que somente a assistência do Mestre me mantinha neste estágio superior de consciência, e dei graças por estarmos tão longe do burburinho da civilização. O mundo ressurgiria com suas inquietações tão logo a nossa conexão fosse quebrada.

Bem, vou ficar por aqui. Nada mais tenho a acrescentar ao meu relato. Não fique decepcionado por eu ter lhe revelado tão pouco. Eu não poderia dizer mais. Ninguém poderia, acredite.

Você não fez todo esse sacrifício para chegar até aqui à toa, fez? Não me faça arrepender-me por estar lhe deixando este pequeno presente, agora que me despeço em definitivo deste corpo que tão bem me serviu durante o meu curto estágio nesse mundo ilusório. Afinal, você já está tendo bem mais do que eu tive. Não tenha medo, meu jovem. Logo estaremos juntos no mundo real. Muito mais próximos do que você possa imaginar.

Até breve!

2 comentários:

Aislam disse...

Viajei! Ainda estou viajando neste mito da caverna de Platão e nesse conto maravilhoso que transportadas
pelas asas do pensamento, somada a todos os sentimentos e emoções viram história que escrito por você só poderia ser de grande conteúdo.

Beijos
Aislam

ana maria costa disse...

Parabéns Denilson Neves por mais um primeiro lugar no desafio de prosa da lista amantedasleituras.
Belo texto e imagem.
jinho