sábado, 10 de Outubro de 2009

Amante das Leituras: Vencedor do Desafio de Prosa de Agosto de 2009 - Denilson Neves


UMA QUESTÃO DE VIDA E MORTE


Denilson Neves


Considerado um homem santo na pequena cidade onde vivia - pouco mais que uma praça com uma igrejinha -, Geraldo era tratado com respeito. É que ele tinha um dom. Podia ver os mortos. Mais que isso, dialogava com eles, e deles recebia instruções, receitas e fórmulas. Mistura de curandeiro com benzedor, fazia de tudo um pouco no ramo da medicina natural, como gostava de chamar o seu ofício. Não cobrava um centavo, e assim mesmo não lhe faltava o necessário, pois não havia quem não lhe desse um pouco do muito ou pouco que tinha, embora ele raramente aceitasse dinheiro. Ele era querido.


O povo aumenta, mas não inventa, e a fama de Geraldo corria longe. Até mesmo da capital vinha gente para se consultar. O povo contava de curas milagrosas operadas em pacientes desenganados, e não faltavam testemunhas para confirmação.


Atendia numa cabana, localizada no alto de um morro mais afastado da cidade. O acesso era difícil. Para chegar, só mesmo a pé ou a cavalo, e assim mesmo depois de uma boa caminhada. A cabana humilde, mobiliada com o mínimo necessário – nem TV tinha -, não oferecia conforto, mas quem nela entrava atestava de imediato as qualidades renovadoras do ambiente. Talvez fossem os ares da montanha, mas o que se dizia era que a aura de Geraldo tinha o poder de dissolver as energias negativas.


De poucas palavras, Geraldo era um homem solitário. Não saía de casa senão para visitar a mãe e as irmãs. Luciana, a caçula, era recém-casada, e Lucinha, a mais velha, divorciada do marido que conheceu na adolescência e nunca deixou da amar, mesmo após anos de sofrimento num casamento fracassado. Fora isso, seus momentos de lazer restringiam-se aos livros, um gosto que adquiriu sozinho na biblioteca da escola que, por contingências da vida, teve que abandonar muito cedo. Felizmente, o povo da cidade, sabedor desse seu gosto, nunca lhe deixava faltar o que ler, incluindo o jornal do dia.


Geraldo teve uma infância difícil até o seu dom se manifestar, e, mesmo após, enfrentou uma montanha de preconceitos. Não fosse pelo apoio dos amigos invisíveis, sempre presentes, talvez lhe faltasse a fibra necessária para aceitar a difícil missão de encarar a morte tantas vezes de perto. Os anos de prática e convivência com os enfermos de toda espécie, contudo, encarregaram-se de fortalecer-lhe os nervos. Aos poucos, aprendeu a ver a morte como um novo nascimento, e isso fez toda a diferença. Não há quem se lembre de vê-lo chorar ou de alguma forma abalar-se nesses momentos extremos. Difícil era consolar os familiares com os seus argumentos. É mais bem mais fácil quando se tem o dom.


Quando a irmã Lucinha lhe mostrou o caroço que tinha aparecido no seio esquerdo, ele teve um mau pressentimento, o que, no seu caso, valia mais que um diagnóstico preciso. Lucinha apavorou-se ao ver o irmão recusar-se a operá-la, coisa muito rara de acontecer. Geraldo estava acostumado à retirada de tumores, o que fazia até mesmo sem anestesia. Suas cirurgias espirituais não causavam dor alguma, coisa que os médicos da região nunca conseguiram explicar. O fato é que, após aplicar um passe preparatório, impondo as mãos sobre a área afetada, ele podia cortar tecidos e fazer incisões profundas sem que seus pacientes movessem um dedo sequer. E apesar de utilizar apenas facas domésticas esterilizadas com uma breve fervura, nunca teve problemas com infecções. Se era sorte - ou talvez efeito da sua aura purificadora - ninguém nunca pôde afirmar.


Qual então o motivo da recusa?


Geraldo não quis explicar muito. Disse somente que o problema não era espiritual, e exigiu que a irmã procurasse um hospital o quanto antes, no que foi atendido. O resultado dos exames saiu rápido. Lucinha havia contraído um câncer de mama. Foi como se o mundo caísse sobre os ombros da família. Geraldo foi o único que não se desesperou.


O médico aconselhou a família a procurar um tratamento mais especializado na capital, e indicou o Instituto Nacional do Câncer, no Rio de Janeiro. Foi um ano de provas aquele. As cansativas viagens para o Rio, os cabelos caindo, a peruca, a retirada da mama, a queda inevitável da auto-estima que já era baixa...


Após um ano de quimioterapia, seguida pela radioterapia, Lucinha teve alta. A família comemorou como se fosse um segundo nascimento, mas Geraldo manteve-se calmo. “É o jeito dele.” – disse a mãe, para afastar a preocupação da cabeça da filha.


Seis meses depois, Lucinha voltou ao INCA para a revisão de rotina, sem saber que a tranqüilidade familiar estava com os dias contados. O pior acontera. Ela tinha tido uma metástase, palavra que Geraldo ouviu pela primeira vez, para jamais esquecer. O câncer tinha se espalhado através dos ossos.


Com o apoio da família, Lucinha jamais desistiu de lutar, mas a desordem celular não lhe deu tréguas. As viagens - cada vez mais penosas - e as dores intensas foram, aos poucos, minando-lhe resistência. Geraldo tentava aliviar-lhe o sofrimento, mas os passes anestésicos já não surtiam o mesmo efeito. Felizmente, os moradores da cidade sensibilizaram-se com o drama familiar por que passava Geraldo e conseguiram hospedar Lucinha na casa de um parente de uma paciente dele que morava perto do INCA.


Mas a verdade é que o irmão de Lucinha em nenhum momento se deixou abalar. Continuava atendendo aos que o procuravam com o mesmo carinho, apesar dos modos reservados que sempre lhe foram característicos. No dia em que recebeu o recado da irmã Luciana, avisando que Lucinha tinha poucas horas de vida e requisitava com urgência a presença do irmão, ainda naquele momento, Geraldo demonstrou estar em pleno controle das suas emoções.


O próprio entregador do recado ofereceu a condução, e a viagem para o Rio foi relativamente rápida. Ao chegar, o médico responsável, respeitosamente, solicitou autorização para aplicar uma alta dose de morfina em Lucinha. A dor seria aliviada ao custo da abreviação do tempo de vida. Geraldo não pensou duas vezes. Não restava mais nada a se fazer.


Ao entrar na enfermaria, encontrou Luciana, aos prantos, debruçada sobre o leito da irmã. Luciana era, de longe, a que mais sofria com o calvário de Lucinha. Mais que irmãs, as duas tinham uma ligação de mãe e filha. Quinze anos mais velha, Lucinha tinha ajudado a criá-la, suprindo a ausência da mãe, que teve de trabalhar duro para sustentar a família após o falecimento do pai.


Tão logo o avistou, Luciana correu para os braços de Geraldo, deixando a emoção aflorar em lágrima abundantes. Somente após ela se acalmar, ele conseguiu aproximar-se do leito onde a irmã agonizava num quadro desolador. Com extrema dificuldade, os pulmões tentavam desesperadamente sugar o ar necessário para manter o corpo em funcionamento. Os olhos, completamente descontrolados, oscilavam dentro das órbitas sem direção, incapazes de manter o foco no que quer que fosse. Eram, sem dúvida, o reflexo da inconsciência que já a dominava.


Geraldo ressentiu-se por não ter chegado a tempo de trocar uma última palavra com a irmã, mas o momento exigia disciplina. Como tantas vezes antes, a morte cruzava o seu caminho, desafiando-o a sustentar-se sobre os alicerces das suas convicções mais íntimas.


Buscando concentrar-se, fechou os olhos em oração, e, ao reabri-los, um novo cenário se descortinou. Em volta de Lucinha, uma equipe de médicos vestidos em túnicas luminosas trabalhava infatigavelmente, em contraste com a paralisia imposta pela tristeza dos que não aprenderam a ver a morte como um novo nascimento. Conhecedor das dificuldades criadas pelo poder atrativo daqueles que não se conformam com a separação, Geraldo tratou de aplicar um passe calmante em Luciana, que rapidamente adormeceu. Enquanto os trabalhadores do outro plano preparavam Lucinha para um novo despertar, com especial atenção ao rompimento do cordão luminoso que unia o corpo à alma, Geraldo sentou-se numa cadeira e abriu o jornal.


Durante um tempo que ele não soube se longo ou curto, procurou distrair-se com as noticias das páginas esportivas. Como se recusava a ter TV em casa, era pelo jornal que ele se mantinha informado do desempenho do seu time no campeonato brasileiro. As coisas não andavam bem, mas ele conseguiu mudar o foco dos pensamentos.


Leu páginas seguidas, até que uma mudança no som ambiente se fez notar. O esforço desesperado de Lucinha para captar o ar tinha cessado. Levantou a cabeça e olhou para a irmã. O olhar, antes frenético, estava fixo, sem vida, mas ela parecia tranqüila. Luciana dormia ainda.


Qualquer outro teria agido diferente, mas o que Geraldo fez foi continuar lendo o seu jornal, como se nada tivesse acontecido. Pode-se dizer que ele estava quase alegre. O martírio de Lucinha tinha chegado ao fim, isso não era razão suficiente para alegrar-se? Esperou ainda mais uns dez minutos. Queria dar um tempo para a irmã, antes que a inevitável turbulência emocional tivesse início.


Levantou-se, enfim, e caminhou até a irmã. Segurava a mão inerte na sua no momento em que o médico chegou. Não havia mais necessidade da morfina. Tudo o que ele fez foi fechar os olhos de Lucinha.


- Meus pêsames.


Os olhos subitamente marejados de Geraldo fizeram com que o médico se afastasse em sinal de respeito. Nesse momento, Luciana abriu os olhos e surpreendeu-se ao ver o irmão chorando. A surpresa foi tanta – quase tanta quanto a dele mesmo – que ela levou algum tempo para se dar conta do que tinha acontecido.


Os dois abraçaram-se, as lágrimas de um consolando o outro mais do que um milhão de palavras conseguiriam. Geraldo, pela primeira vez desde que se lembrava, compreendeu a impotência da razão quando duas almas que se amam vêem-se diante de uma separação definitiva. A emoção veio de dentro, sem pedir licença, e não houve como represá-la. De nada adiantou saber que ela ainda vivia, amparada e até mais saudável do que jamais esteve. Ela já não era a Lucinha, sua irmã. Nunca mais seria.


Um filme desenrolou-se na sua mente. Anos e anos de convivência. As brincadeiras de criança, as dificuldades financeiras que viveram junto à mãe e à irmã caçula - até fome eles passaram. Tudo isso formou laços invisíveis que se recusavam a um rompimento sem dor.


A mãe deles, Dona Creuza, foi a última a se unir naquele abraço. Ela tinha ido visitar a igreja antes de seguir para o hospital, e o padre lhe assegurara que Lucinha já estava curada. E estava mesmo, Dona Creuza logo compreendeu. O coração de mãe consolou-se com aquela idéia, e ela olhou para o corpo da filha como se fosse um vestido velho que já não prestava mais.


Geraldo, naquele momento fatídico em que todas as suas convicções foram postas à prova, recorreu ao colo da mãe, como fazia nos tempos de menino - ainda não se ergueu maior fortaleza que esta. Dona Creuza enxugou as lágrimas do filho e lhe trouxe de volta à realidade.


- Não chore filho. Sua irmã está melhor agora.


O enterro do caixão foi o último momento de pranto na família. Era uma imagem muito forte, mesmo para um vestido imprestável. No minuto seguinte, entretanto, não havia quem não estranhasse o sorriso e a alegria estampados naqueles olhos há pouco tão sofridos.


Era a vida que renascia.


Amante das Leituras: Vencedora do Desafio de Prosa de Ago/Set de 2007 - Maria João Oliveira

O "Alfabeto" dos Animais

Maria João oliveira

Sofia conhece o "alfabeto" dos animais desde a sua infância. Decifra com mestria as palavras de amor que eles escrevem em código. Sabe que eles também possuem inteligência e sentimentos.

- O que é que tu tens, Sofia? Esse meu cão tem mau génio, ninguém se pode aproximar dele e só por especial favor, aceita uma carícia minha. Não te conhecia, mas abana o rabo, corre para ti, mete a cabeça nas tuas mãos, deita-se a teus pés! O que é isso? O que se passa?!...

- Não sei, Carlos. Olho-os nos olhos com todo o amor que sinto por eles. Só isso.

- Pois é – murmura o amigo, emocionado –, está aí o segredo.

Naquele momento, Carlos sentiu-se mais pequeno que um grão de areia, perante os olhos rasos de lágrimas da sua amiga.

Sofia trava, desde criança, uma luta titânica contra a indiferença e a falta de sentimentos. E como os monstros são incansáveis, o sofrimento dos animais não tem férias. Por isso, ela se gasta, há muitos anos, sem medir nem calcular, num tormento quotidiano, a matar a fome, a tratar feridas e pernas fracturadas de cães, gatos, pombas, etc., vítimas de maus tratos de toda a espécie. Sofre também com o drama dos animais de "estimação", mas a sua dor raramente consegue atravessar a dureza do granito, a não ser quando recorre aos organismos de protecção dos animais. Contudo, estes também já estão exaustos e sentem-se impotentes, sobretudo perante milhares de cães e de gatos, abandonados nas férias, pelos seus próprios donos e que acabam por ser abatidos nos canis municipais.

- Quantos deles – pensa Sofia – ofereceram calor e conforto, durante todo o ano, aos seus donos, quando eles chegavam a casa, cansados, deprimidos, irritadiços… A comovente alegria dos animais, naqueles momentos, merecia um hino.

E pensava também num lindo gato branco, peludo, cheio de charme, de expressão angélica, que se esquecia da cauda e dos ramos das árvores em que se baloiçava, mal via os donos chegar a casa. Corria ao encontro deles, com aquele ternurento miar de boas-vindas, os olhos dourados a brilhar muito, o coração prontinho para dar e receber… Chamava-se Sião.

Algum tempo depois, Sofia encontra-o, sem vida, junto de um contentor de lixo. Tinha sido apedrejado até à morte, numa bela tarde de verão, enquanto os donos saboreavam gelados e tomavam banhos de mar.

Por vezes, a alegria de estar com os amigos arrefece dentro dela, em redor de uma mesa festiva. Não é fácil assistir ao entusiasmo das pessoas, perante o sabor da "bela chanfana" ou do leitão assado, com a boca aflitivamente aberta e uma laranja entre os dentes. Lembra-se do artigo 13º ("O animal morto deve ser tratado com respeito"), da Declaração Universal dos Direitos do Animal. A dor e a angústia que o animal sofreu são bem visíveis, mas só ela se apercebe disso. E o odor que ele exala excita as pessoas que acabam por esquartejá-lo com insuportável prazer. Sofia olha os amigos em silêncio, come uma batata frita para disfarçar e sai discretamente para o jardim.

Por vezes, fica exausta e sente necessidade de ser como os outros, de soltar o grito do Ipiranga, de adormecer no rio do esquecimento… No entanto, como ave da esperança, ela continua a semear nos seus alunos a compaixão, a ternura, o amanhecer de um tempo novo. E fala-lhes do autor de "O paraíso dos animais", o poeta basco Francis Jammes , porque ninguém como ele se compadeceu tanto do seu sofrimento. Ninguém como ele nos faz estremecer ao falar da "luz profunda e suavemente triste que existe no olhar dos animais", ao lembrar os dromedários apertados como sardinhas enlatadas, numa barraca de feira, os frangos transformados em prémios de rifas e arrastados loucamente por uma roda, em constante movimento, com um leitão apavorado no meio, o vitelo "para engorda", separado da mãe, uma semana depois de nascer, encerrado num caixão às escuras e submetido a monstruosas torturas, para engordar mais de um quilo por dia …

Quase no fim do ano lectivo, os alunos do 11º ano apresentaram uma dissertação sobre experiências médicas com animais, em todo o mundo. Ao ler a dissertação do Telmo Raimundo, Sofia chorou. Tentando extirpar o cancro da indiferença, ele procurou levar os seus potenciais leitores a pensar, a sentir, a agir… E falou das cordas vocais cortadas a cães submetidos a experiências, para deixarem de ouvir os seus ganidos, apontou o dedo às universidades onde se corta a cabeça a animais, se abre o seu tórax e se lhes retira o sangue até à paragem cardíaca. E não esqueceu o Método Draize que introduz no estômago de cães e de roedores produtos de limpeza, pesticidas, cosméticos, até ao seu rompimento, que imobiliza coelhos conscientes e os impossibilita de fechar os olhos com substâncias que provocam infecções, hemorragias, cegueira. Raspam também os pêlos dos animais, retiram camadas de pele e colocam substâncias corrosivas sobre a carne viva. E o Telmo falou também dos métodos alternativos à utilização de animais em pesquisas, que já vão sendo postos em prática, embora se verifique ainda uma grande falta de sensibilidade por parte de alguns cientistas. Dizia ainda o Telmo que a actividade científica não pode estar acima das questões éticas. E citava Mia Couto, escritor que muito admira: " O mundo é uma pegajosa teia, onde uns são presas e outros predadores".

Nos jornais da sua cidade, Sofia tenta salvar a dor dos animais, da indiferença e do esquecimento. E fala dos que estão ameaçados de extinção, dos touros ensanguentados na arena, dos que sofrem nas mãos dos seus próprios donos, dos agricultores, dos cientistas, dos caçadores de peles que matam focas à paulada, das crias que são esfoladas vivas e se arrastam num choro pungente…

Sofia chama também a atenção para o sofrimento das pombas da cidade que aparecem no seu terraço com as patas fracturadas e os dedos dilacerados por armadilhas, ou vítimas de venenos que lhes roubam o sentido de orientação e a coordenação dos movimentos. Tentam desesperadamente voar, mas embatem nos edifícios e caem no chão, onde ficam, durante muitos dias, a debater-se até à morte.

Num dos jornais que Sofia assina, uma responsável da "SOS Animal"denunciou: "A perversidade humana não tem fim. (…) Os animais são espancados com paus, enrolados em arame farpado, atirados de pontes, afogados, queimados, mutilados para rituais satânicos e até vítimas de abuso sexual."

Por tudo isto, Sofia afirma que, para se divertir ou em nome da ciência, da economia e do espectáculo, o homem trata estes seres indefesos com ilimitada crueldade. Está a anos-luz da ética do antigo Egipto, por exemplo, que fomentava a responsabilidade para com os animais. Toda a falta de respeito era considerada como pecado. Sofia não esquece uma inscrição numa pirâmide que justificava o falecido rei "(…) Não existe qualquer queixa contra Fulano por parte de um ganso / Não existe qualquer queixa contra Fulano por parte de uma vaca" (o ganso e a vaca eram os representantes do reino animal).

Ao pensar no poeta basco Francis Jammes, Sofia sente que o seu fardo se torna mais leve. E a sua gratidão é orvalho sobre aquela longa noite de pesadelo. A dor que ele sentia perante um animal maltratado era tão parecida com a sua!… Já fazem parte de si estas palavras que o poeta , um dia, proferiu: "(…) Se não fosse o respeito humano, eu ter-me-ia ajoelhado perante tanta paciência e tantas torturas (…)".

Um dia, Francis Jammes convidou todos os poetas a acolher os animais torturados no seu coração. Franz Werfel escutou o seu apelo. Por isso, Sofia devora a sua "Ode aos animais sofredores", como quem devora um fruto maduro depois de uma fome de séculos. Continua a pedir aos seus alunos que acolham todos os animais torturados no seu coração. E, aos poucos, eles vão aprendendo a descodificar o maravilhoso "alfabeto" dos animais.

sábado, 12 de Setembro de 2009

Amante das Leituras: Vencedor do Desafio de Prosa de Junho/Julho de 2009 - Julio Fernandes


Julio Fernandes

Se alguma vez houve,
quando foi que nos apresentaram
te cumprimentei como se faz
a um amigo de longa data
e, logo ali, nos desviámos das coisas
para as quais corríamos
e nos sentámos para trocar impressões
calmamente?

Há quanto tempo estavas aí
e eu aqui – “se calhar” – sem nos vermos;
ou viamo-nos e falávamos
sem nos apercebermos que estávamos
e éramos e sempre fomos?

* * *

Naquela faixa de areia, tão fina quão curta, disseste-me do poema e do que, ao nascer, o poema continha e da pose que o gerava. Não sei se entendi muito bem, naquela altura, o que me querias dizer, entre o descanso daquela tarde de Domingo à beira Douro e o exercício mental que ela proporcionava no mote que tu propunhas.

Dizias: «O poema nasce quando pousas os cotovelos, seguras o rosto com as mãos, botando para fora aquilo que “te” olhas… por dentro»1, e eu “quase” acreditei em ti. E foi um “quase” tão instante que, me parece agora, nem chegou a ser.

A dúvida também tem um efeito agregador e o “saber” começa por existir quando ela surge, porque se sabes, então não duvidas. Não duvidar, não significa aceitar o que se sabe e, por ser conhecido se transforma em credível. Sei coisas em que não acredito e acredito em coisas que duvido, mas sei que existem e sei que nunca as verei nem tirarei as dúvidas que tenho. É por isso que, às vezes, me fico a cismar naquilo que sei e duvido e, por duvidar, também acredito.

Em tempos eu via-te pelo ecrã do pequeno aparelho que trago no bolso. Via-te porque te lia e via-me porque me enviava na mesma forma como te recebia: em letras casadas, formando palavras que, construindo a frase, moldavam o corpo criando a forma com que te via, com que me vias — éramos troca de pensamentos em situação. E onde isso nos (me) levou? Como vamos sabê-lo agora se existe o princípio do efémero?

Talvez até agora, não te tenha dito nada — ou não me tenhas dito nada — neste corridinho de divagação. Contudo, ele é encontro — ou uma descolagem no corpo uno onde tu e “eu” vivemos. Mas será que vivemos, tu e “eu” no mesmo corpo e ambos somos um mesmo pensamento?


* * *



Não deixo de pensar em que parte do corpo existe este interruptor que “obriga”, quase sempre quando menos conto, a deitar para fora coisas que são de dentro, e, por o serem, são também de fora — dentro é um espaço de limite finito, fora é um espaço finito onde o limite fica mais além e não é próprio, mas de quem o toma.

Tenho consciência que a “coisa” é uma força sujeita a uma certa organização. A ideia, se se pode entender-la como “coisa”, há-de, forçosamente, reflectir sobre um dado concreto. Mas o que é o concreto? Que é o dado da coisa que a concretiza?

Nos olhos entra a luz, por ela as “coisas” reflectem-se e são vistas — logo ver é um princípio de “coisa” real, ou não? Quem diz do ver, diz de todos os sentidos. Mas será o sentido que forma a “coisa” e será a “coisa” real porque formada nos sentidos. Posso dizer que a “compreensão” (o entender), é “coisa” em si mesma e, portanto, uma realidade?

“Compreender” é um exercício que requer esforço, certo? Em todos os sentidos o esforço existe? Apalpar e compreender (dizer do apalpado) o que é, também é exercício. No cheiro e dizer, outrotanto… e por aí fora. Logo se é (há) exercício, posso dizer que tudo quanto requer exercício para ser definido é a “coisa”. E a “coisa” existe, é real porque necessita de exercício — a força que lhe dá a compreensão, a descreve, agrupa no conjunto a que pertence nos múltiplos conjuntos a que as «coisas” pertencem.

Neste parecer: o complexo também é, mesmo entre o conceito objectivo e subjectivo que o forma(?)…


* * *


Será então ao pensar-me como “coisa” que posso “ver-me” vendo-te, e tu sendo o que me vejo és o que sou. E porque és, eu sou contigo e ambos somos num corpo uno, embora não sejamos assim tão unos no corpo que formamos. Mas o exercício da convivência que vamos tendo, mesmo que seja “quase” irreflectido, permite-nos dizer, com segurança, que somos, ou não? Se estou em erro, elucida-me…


* * *


Partilhamos a Terra com a sabedoria dos mortos; ligamo-nos a ela com fios a que chamamos “história” e “conhecimento”. Com eles estabelecemos o que nos liga como povo cultural.

* * *


Gostaria de contar-te uma história alegre, mas não tenho como. Começar por «era uma vez» e descrever um menino que fosse a luz dos olhos da mãe e o regalo do pai, mas essa história não existe na vida dos “órfãos”. Pior, seria uma história imoral para todos aqueles que tendo família, vivem como se a não tivessem; deixados «ao deus dará» pelas ruas, durante o dia e sem qualquer conforto quando chega a hora de voltar a casa. Cada amanhecer, dum menino assim, é uma interrogação e uma exclamação admirativa ao que a sociedade propõe aos seus filhos, a forma como os cria ou a forma como os abandona.

No fundo, é a sociedade criadora do seu próprio mal, dos seus próprios delinquentes. Constói prisões e legisla sobre os desvios comportamentais. Forma tribunais e penas de morte, quando ela deveria ser a primeira a ser julgada. Talvez um dia, em vez dum tribunal de crimes de guerra venhamos a ter um tribunal para os crimes sociais que os governos gerem nas mais aberrantes formas, desde a liberalização do sexo (e depois retiram os filhos aos pais, por suposta falta de condição para os criar, ou outras invenções cruéis…), até à marginalização que o consumismo e o egoísmo provocam.

Vivemos tempos difíceis. As instituições perecem lentamente em nome duma liberdade que não existe e dum modus vivendi feito de aparências. Os valores, a dignidade, os direitos do homem e da criança, são meros papéis com palavras bonitas. O trabalho deixou de ser a condição digna do homem em esforço à sua subsistência e à da família. Cada vez mais tarde as pessoas pensam o constituir-se familiarmente, cada vez mais se pensa os filhos e o quanto eles exigem de amor e esforço. Há quem os abandone de todas as formas por serem estorvo na sua vida, uma prisão para os seus vícios e prazeres, que todos vamos tendo, em maior ou menor escala. Assim, o aproveitamento dos Estados que se fazem donos de todos. Eis porque não vivemos livremente, mas libertinamente. Os Estados permitem-nos todos os gozos, disformam-nos nos perenes valores que sempre deveriam ser, desviam-nos do essencial como se isso fosse o “pecado”, o não permitido. Depois, responsabilizam-nos, quando passaram toda a nossa infância e juventude a educar-nos na irresponsabilidade e, nas escolas, para o facilitismo, desobrigando a pensar (pois pensar é perigoso, as pessoas que pensam têm propensão a serem inconformadas, a ter ideias próprias, a ver o bem e o mal, o conveniente e o inconveniente, o que é o bem comum e a panóplia de coisas, desde a corrupção, a «cunha» que aprova para tarefas específicas pessoas sem habilitação para as desempenharem, ao suborno).


* * *


Hei-de continuar a ler, na biblioteca pública,
aqueles que já andaram no tempo
e o mármore aproxima mais. A história
partidária não se pode escrever fora da História
nem exemplos se podem dar de revoluciários
a seu modo, na luta de interesses.

Hei-de continuar a ler, na biblioteca pública,
aqueles que o mármore já cobre. Sem deixar de os olhar
como são exactamente.
(Não sei olhar de outra forma
os Jesse James ou Bill the Kid
com risco fora de tempo, dentro da memória.)

Hoje foi-se o pirata aéreo, o assaltante de bancos,
com palmas de herói!2


* * *

É por isso, entre outras coisas, que gosto de ver, e até me rio com isso, quando duas pessoas são apresentadas e começam a estabelecer a base de conhecimento mútuo pelos seus gostos ou estilos. Gosto de comida, música, dança, discotecas; estilo de roupa, de vida, de hábitos. Não seria mais “conhecedor” se fosse: ideias, conceitos de vida; a forma como pensa o mundo, projectos de futuro, princípios?! …

Amiudadas vezes me lembra o poema de César Vallejo: «Acontece que o lugar onde visto / as calças, é uma casa onde / tiro a camisa em voz alta / e onde tenho um soalho, uma alma, um mapa …», é, também por isso mesmo, que nas conversas de mim para comigo, sinto ser uma casa de desgraça num mundo desgraçado,

Nasci para um sol cinzento
que antevi pelas asas por onde
assomou minha cabeça.
(…)
E desejei voltar ao escuro;
a gruta mais quente do que o mundo.

outras vezes, encontro uma certa forma de sobrevivência na escrita — a minha, que muitos julgam de narcisista. Mas não é verdade que quando escrevemos, falamos de experiências próprias, e ao colocarmo-nos perante a escrita com todas as interrogações e exclamações admirativas ou interpelativas que em nós moram, olhamos o mundo e damos-lhe um pouco de nós com fim único de alerta, do que gostaríamos ele modificasse, do que pensamos seria melhor se certas coisas se eliminassem; não fala um narcisista de Justiça, Verdade… e um rol extenso de virtudes que são, hoje, paradigmas perdidos entre os escombros económicos para quem são empecilho?

Deixarei que o vento leve
e o eco me devolva, agora que a tarde
se borrou de cinza e chora,
todos os fragmentos.
Até ao próximo ciclo
encherei as asas de cores
e chilrearei a ironia com a garganta cheia

(ou cheia de rio que nem é rio nem garganta
ou é água ou é sangue que se tranforma
no sangue ou água de mim!?, ou não)

e do extase que nem é natureza nem fluxo
regorgitarei a história, num refrever interno
e inteiro complemento a que o mármore chama.

São certezas aquelas incertezas que o tempo escondia.
O tempo maravilhoso que nada encobre.
Além, entre o véu do dia, uma abertura mostrou o sol,
e tudo ficou mais nítido, ou mais incoberto ficou o só!

* * *

Tudo quanto me perguntas é particularmente muito. De facto, obriga a uma introspecção analítica, a uma consciência pessoal de vida — do vivido. Assim, são perguntas que tocam o fundamental e nele, neste sentido, o divagar não existe, pois o conhecimento adquirido, a experiência não permitem o devaneio dum pensamento que, embora possa parecer filosófico-metafísico, comporta uma súmula de realidades onde os princípios, os valores, são o suporte. Por isso, também, o dizer-te hoje, assim, calmamente; ponderando dentro, o que a dentro pertence; e deixando sair o que, embora pertença ao de dentro, é próprio de comunicação — comunicar é tirar de dentro para fora o conhecimento que se dá gratuito, que se recebe gratuitamente.

Não sei se respondi ao que me perguntas hoje, muito menos se me faço entender… mas, agora, preciso descansar. Um dia destes, encontramo-nos por aí, quem sabe, e voltaremos a dizer(me) dos caminhos que trilhámos.

Até lá, bem-haja.



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1 — No original: «O poema nasce / dentro das tuas mãos / enquanto repousa / nelas o teu rosto.» — GUIMARÃES, Fernando — CONHECIMENTO E POESIA, Oficina Musical, Edição patrocinada pela Câmara Municipal do Porto. ISBN 972-95700-1-9.

2 — Poema dedicado pelo autor a Hermínio da Palma Inácio, «revolucionário e militante de base do Partido Socialista, celebrizado pelo primeiro desvio político de um avião e pelo assalto ao Banco de Portugal», sobre a notícia da sua morte.

Amante das Leituras: Vencedora do Desafio de Prosa da Besta - Maria João Oliveira



O voo do pássaro

Maria João Oliveira


Nas mãos em concha, a água da torneira e as suas lágrimas misturaram-se, mais uma vez. Esfregou os olhos, as orelhas, o pescoço… E a tosse, que lhe vinha do fundo da alma, deixou-a exausta. Olhou o espelho e este devolveu-lhe um olhar pungente, num rosto que o tempo e o cansaço começavam a deformar.

- Isto passa… Estou só a lavar a cara – murmurou, tentando reunir forças para se afundar, de novo, no sofrimento das panelas, do fogão eléctrico, do formigueiro dos pulsos arroxeados…

- Uma pessoa habitua-se, não? Talvez assim as coisas se tornem mais fáceis… - pensou, respirando fundo. No entanto, ficou, durante alguns minutos, a olhar para dentro de si própria.

Como podia ainda amar aquele homem? Tinha ficado refém da sua beleza? Edmundo era alto, esbelto, mas os seus belos olhos castanhos tinham o brilho do aço e o seu riso demoníaco espetava-se como um alfinete na sua alma. Ele farejava a sua tristeza como pasto do qual se sentia sempre faminto. Porque suportava ela aquele humor corrosivo, aquelas palavras que lhe zuniam dentro do ouvido e lhe caíam na alma como praga maldita que tudo devasta? Porque não o abandonou, quando ele lhe deu aquele empurrão que a marcou para sempre? Porque tentava entender o seu comportamento ? “A falta de compaixão é patológica”, dissera um neurocientista famoso que ela admirava muito. Ele afirmara que o comportamento humano tinha uma base neurobiológica, mas não deixava de acreditar na capacidade que temos de controlar, voluntariamente, respostas automáticas, impulsos básicos que nos podem levar a cometer actos cruéis. E ela também acreditava na força do livre arbítrio. Pensando bem… não estava resignada. Sabia que a resignação atrofia a alma, mas…porque gostava de o ver dormir serenamente como um anjo? Amava-o, mais do que nunca, naqueles momentos. Ah, se pudesse beijar os seus olhos pestanudos, a boca sensual, os sedosos cabelos grisalhos, as mãos pousadas na dobra do lençol… E como seria bom poder conversar com ele, mostrar-lhe a sua alma… No entanto, ele tinha sentimentos, não tinha? Porque amava tanto os animais, especialmente a Minnie? Era capaz de dar a vida por ela! E estava sempre a festejar a sua presença! Não lhe queria mal, mas inveja-a em segredo. Porém sentia que ele odiava, facilmente, as pessoas. Tinha poucos amigos. Como podia amá-la, então? Mas porque teria ele casado? Às vezes, sentia a desistência muito perto de si como um poço negro…Sentava-se no bordo, a olhar para o fundo, a querer saltar para dentro, mas acabava por ficar sempre ali, exausta, atordoada como pássaro cativado por serpente.

De súbito, ouviu fortes pancadas na porta. Ficou parada como animal perseguido. De um momento para o outro, a porta abriu-se e ele entrou, com a mão no cinto das calças.

- O que estás aqui a fazer na casa de banho, há tanto tempo, Margarida? – berrou, com as narinas muito abertas. – Não vês que quero dar banho à Minnie, idiota?! Além disso, é meio-dia e ainda não começaste a fazer o almoço! A que horas vou chegar à minha empresa, não me dirás?! E sabes que aqueles reles trabalhadores se aproveitam logo da minha ausência, não sabes?!...

- Vou já, Edmundo… Desculpa! – murmurou Margarida, saindo, cabisbaixa, da casa de banho.

- O que é isso? Agora não olhas para mim? - gritou ele, à porta, mostrando os dentes e as garras. – Desculpa… desculpa… desculpa… é só o que sabes dizer! Um dia, vais acordar transformada em burra! E estás a ficar uma barrica atarracada! – ripostou, soltando uma gargalhada feroz. - Não sei porque casei com tal mosquinha morta! E já lá vão mais de vinte anos! Não serves para nada! O fogão que o diga! E a cama também! Só engravidaste uma vez . Era uma rapariga. Tinha de ser! E morreu, claro!...

Naquele momento, o olhar de Margarida voltou-se para ele, num assomo de dor e revolta. O coração batia-lhe na garganta.

- Não te lembras do empurrão que me deste, Edmundo? – acabou por dizer, com lágrimas na voz, como quem morre nas próprias palavras que pronuncia.

- Se a Minnie não estivesse à espera do banho, engolias já essas palavras, estúpida Margarida sem pétalas! O meu mal foi não te ter educado à chibata!...- gritou ele, lançando-lhe um olhar ríspido. – Vem cá, Minnie, meu amor… Tu é que me entendes!
E Edmundo agarrou ao colo uma cadela pincher, preta e branca, de coleira e laço cor-
-de - rosa, que lhe deu, de imediato, uma grata lambidela no queixo.

No dia seguinte, um morno sol primaveril inundava já a pequena cidade, quando Edmundo acordou em sobressalto.

- Está quieta, Minnie! Olha que me rasgas os lençóis! O que se passa? Ela não está aqui no quarto? Que novidade, meu amor! Foi para o sofá da sala, como é costume. Ela é doida, sabes? Ontem fez o empadão de carne que eu adoro e quis jantar à luz das velas, vê lá tu! Vá, minha linda, hoje é domingo! Deixa dormir o teu amigo!

Porém, ao contrário do que era habitual, a cadela não lhe obedeceu. Saltou para cima da cama e puxou o cobertor para trás. Os seus latidos faziam lembrar choro de criança.

- Pronto, Minnie! Vou já! Sabes que não te posso ouvir ladrar assim…

Edmundo esfregou os olhos sonolentos, levantou-se e seguiu, lentamente, a cadela até à sala. Móveis e objectos decorativos, sem vestígio algum de pó, brilhavam ao sol da manhã. As almofadas estavam espalhadas no chão. Edmundo aproximou-se e encontrou Margarida estendida no sofá, com os lábios arroxeados, o rosto cor de cera, o corpo gelado e rígido… Parecia olhá-lo fixamente nos olhos. A seu lado, estava um frasco vazio de soporíferos.

- E agora? Tenho de aquecer comida enlatada? E quem vai fazer as compras, Minnie?

sexta-feira, 11 de Setembro de 2009

Amante das Leituras: Vencedor do Desafio de Prosa de Maio - Denilson Neves



CAÇADORA

Denilson Neves


Sentado na mureta da varanda da frente com as costas apoiadas na pilastra e os braços cruzados sobre os joelhos, Cabeça — como era conhecido no campus universitário — ruminava a sua dor. Por única companhia, o véu espesso da noite, onde nuvens negras mesclavam-se à escuridão. Dentro da casa, um rock pesado tocava num volume ensurdecedor, misturando-se ao vozerio da fauna de estudantes alcoolizados. Aquele céu negro e frio, contudo, abafava completamente qualquer som que não fosse o dos seus próprios pensamentos. Acabara de tomar um fora da menina mais cobiçada da faculdade, o que, no seu caso, configurava-se como coisa natural. Afinal, ele não passava de um simples estudante sem-eira-nem-beira, magricela, imberbe e cheio de espinhas na cara. Mas um jovem de 17 anos, há meses distante de casa, após alguns copos de cerveja, acaba se tornando excessivamente confiante.

Ele não saberia dizer quanto tempo se deixara ficar assim, mas seu relógio marcava zero horas quando o ronco potente de um motor despertou-o de seu estado meditativo. Através do portão escancarado, viu uma mulher estacionar uma moto preta em frente à república de estudantes e, lenta e despreocupadamente, caminhar através da passarela de concreto em direção a casa.

Repentinamente, o vento começou a soprar, e os cabelos dela, muito lisos, esvoaçaram cinematograficamente. O mato alto que invadia as margens da passarela também agitou-se, roçando-lhe nas pernas enquanto andava. Na metade do caminho, despiu o casaco de couro preto, deixando à mostra os ombros nus, muito brancos. Sob os afagos do vento frio, o tecido fino da blusa tomara-que-caia aderiu aos seios como se fosse uma segunda pele, aguçando ainda mais a atenção do jovem agasalhado. Ela não sentia frio?

Sem parar de caminhar, a moça deixou pender o casaco sobre os ombros, sustentado apenas pelo dedo indicador da mão direita, em que unhas muito compridas e vermelhas contrastavam com a alvura da pele. O casaco estalou ao vento.

Apesar da noite fechada, ela usava óculos escuros, o que, junto com o batom vermelho-carmim e os cabelos muito negros, destacava ainda mais a brancura da tez. Aliás, todo o seu vestuário parecia ter o propósito de realçar a palidez da epiderme, pois o negro predominava, do casaco às botas de salto alto e cano longo, por onde se embutiam as bainhas da calça de couro negro, muito justa, delineando com perfeição os contornos do corpo esguio. Completava o visual dark um colar de prata de onde pendia um crucifixo com um rubi incrustado ao centro.

Movia-se felinamente, acentuando os movimentos dos quadris tão sedutoramente que Cabeça chegou a pensar que ela andava em câmera lenta, e que nunca o alcançaria. Quando lhe dirigiu a
palavra, uma, duas, três vezes, ele teve a sensação de estar despertando de um sonho:

— Ei! Tem alguém aí?

Irritado consigo mesmo pela imagem de idiota que devia estar deixando transparecer, ele respondeu sem levantar os olhos:

— Oi! Desculpe. Me distraí pensando na vida.

— Quê??? Uma festa rolando lá dentro e você aqui, pensando na vida?! Já sei, levou um fora de alguma garota, né? Confessa.

— É-é-é... — Gaguejou num sorriso encabulado, inebriado pelo perfume de jasmim que exalava dela, enquanto tentava adivinhar que idade poderia ter.

— Foi o que pensei. O que acha de entrar comigo?

— Eu? Tá me convidando pra entrar com você?

— Você é devagar, hein?! Anda, vamos antes que a festa acabe. Não é todo dia que tenho uma oportunidade dessa.

Vendo que o rapaz não se movia, ela arrastou-o pela mão e entrou na casa sem cerimônia, empurrando a porta com tanta força que derrubou todas os copos da bandeja de um garçom desavisado que passava na hora. Pela entrada abrupta, mas não só por ela, todos os olhares se voltaram em sua direção. Indiferente ao ti-ti-ti que se formou em torno de si, ela passou como uma flecha pelo meio da turba, abrindo caminho aos esbarrões. Só estacou ao atingir o meio da sala, onde começou a dançar no seu próprio ritmo, alheia à música que tocava. Olhando fixamente nos olhos de Cabeça, que não desgrudara dela nem um só momento, convidou-o a dança.

O garoto sentiu o corpo tremer e, timidamente, esboçou alguns movimentos, ainda sem acreditar, completamente magnetizado pelas ondulações daquele corpo de fêmea que voluteava à sua frente. Uma roda se abriu naturalmente ao redor deles, e as mulheres da festa passaram a observá-lo com mais atenção. Contudo, seus olhos agora se moviam numa única direção, a mesma para onde convergiam todos os olhares masculinos.

Tudo ia muito bem até que um violento empurrão arrancou o jovem do seu arrebatamento. Tomou seu lugar na roda o temido João, mais conhecido como João Grandão, alcunha recebida não só pela agigantada estatura, mas também pelos escassos dotes intelectuais. Muito brevemente passou pela mente do rapaz reivindicar o posto perdido, mas o juízo falou mais alto – ou não bebera o suficiente.

Dançando de costas, ela somente se deu conta do acontecido ao girar o corpo e parou imediatamente ao se deparar com a involuntária mudança de par. O grandalhão, como se nada tivesse acontecido, continuou a dançar. Ela procurou Cabeça com os olhos em busca de uma explicação, e ele, erguendo uma das mãos o mais alto que pôde, apontou com a outra a causa do seu afastamento.

Com um sorriso de satisfação, ela retirou os óculos. Algo no seu olhar, porém, causava - ou deveria - arrepios. João Grandão, presunçosamente, abriu um abraço ao vê-la aproximar-se e retribui o sorriso, subitamente transformado num uivo de dor, ao receber uma inesperada joelhada entre as pernas. Contorcendo-se no chão, ao som das sonoras gargalhadas da malta expectadora, surpreendeu-o ainda um forte pontapé na boca do estômago. As gargalhadas somente cessaram quando um violento chute desferido em cheio no meio do nariz o fez perder os sentidos, com o sangue jorrando aos borbotões. Se nesse momento um grupo de estudantes não a imobilizasse, certamente ela teria se atirado sobre ele. O reflexo vermelho nos olhos ensandecidos continha um recado muito claro. Ela não havia terminado.

Era mais forte do que parecia, para uma mulher. Foram necessários quase dez homens para contê-la, e mesmo assim ela nocauteou três deles. Tiveram que arrastá-la para fora da casa a fim de tentar acalmá-la. Felizmente, o ar frio da noite, de alguma forma, teve um efeito sedativo sobre ela, que parou de lutar e permaneceu calada.

Vendo-a mais calma, os estudantes, um a um, tendo o cuidado de não lhe dar as costas, foram retornando para a festa. Estavam tão assustados que não ousaram lhe dirigir a palavra. O único que ficou foi Cabeça, que até ali apenas acompanhara de longe o desenrolar dos acontecimentos.

Levou um susto quando ela, ainda imóvel, virou os olhos em sua direção. Por um instante, ficou indeciso entre correr ou ficar onde estava, mas ela lhe sorriu, e um brilho diferente cintilou nos seus olhos. Com o dedo indicador, fez sinal para que ele se aproximasse, e era mais uma ordem do que um convite.

- Eu trouxe o casaco que você deixou cair lá dentro. – balbuciou ele.

- Eu não preciso dele. Não devia deixar aquele troglodita passar por cima de você.

- Falar é fácil. Você viu o tamanho do cara?

- Ta falando isso pra mim, moleque?

- Tem razão. Eu sou um covarde. – a súbita aspereza na voz dela fez baixar o tom da sua.

- Sabe de uma coisa? Apesar de tudo, você foi o homem que mais me interessou nessa festa.

- Ta me gozando, né?

- Não. Não tô não. Vem comigo?

- Claro! – Respondeu sem pensar, mas se arrependeu um segundo depois.

Antes que ele pudesse mudar de idéia, ela o puxou pela mão na direção do portão e, tão logo alcançaram o lado de fora, lhe ofereceu o capacete. Ele reparou na moto, uma Harley-Davidson off-road. Não entendia muito de motos, mas sabia que aquela era uma raridade.

Temeroso, perguntou para onde ela pretendia levá-lo. Sem dar resposta, ela prendeu o cabelo num coque e montou. “Você vem ou fica?” Ainda indeciso, ele sentou na garuba. Ela ligou a ignição e o ronco do motor superou o barulho que vinha da casa. “Cadê o seu capacete?”, perguntou. “Está na sua cabeça”. “Mas...” A moto arrancou, sem tempo para maiores hesitações. “Pra onde você está me levando?”, insistiu. Ela se virou para trás, desafiadora: “Não está com medo, está?” Depois de tudo o que presenciara, ele estava, mas a excitação era maior. Com a moto em movimento precisou gritar para ser ouvido.

- POSSO SABER O SEU NOME? OU NEM ISSO VOCÊ VAI ME DIZER?

- DIANA.

- O MEU É...

- NÃO DIGA!

Minutos depois, ela pegou a rodovia principal e começou a acelerar. Sem que ele percebesse, a moto, aos poucos, atingiu uma velocidade vertiginosa. O visor do capacete, empoeirado, dificultava a visão na noite escura, mesmo com os faróis acesos, e ele nem se deu conta de quando saíram do perímetro urbano e começaram a subir a serra. As árvores se transformavam em um borrão verde escuro à medida que a moto subia, ziguezagueando pelas curvas fechadas da estrada montanhosa. Em determinado momento, ela soltou os cabelos, que foram de encontro ao capacete dele, deixando-o ainda mais cego.

Repentinamente, a moto começou a dar solavancos, e ele sentiu as pernas roçarem em galhos e arbustos. “VOCÊ NÃO FEZ O QUE EU ESTO PENSANDO, FEZ?” Ela não respondeu. Nem precisava. Haviam penetrado na floresta, seguindo por uma trilha desconhecida até pelos montanhistas mais experientes da região. “É BOM VOCÊ SE SEGURAR AGORA!” Ele pensou em perguntar por quê, mas não teve tempo. A moto começou a deslizar lateralmente, fazendo movimentos ora de ziguezague ora de sobe e desce. Estavam atravessando um lamaçal, resultado das chuvas intensas dos últimos dias.

Enquanto a lama barrenta que chovia em todas as direções aderia à sua roupa e inutilizava o visor do seu capacete, Cabeça tentava por todos os meios manter-se no banco. Parecia que nada de pior poderia acontecer, mas a madrugada estava apenas começando.

Em determinado momento, ela pareceu perder o controle da moto, que desceu por uma espécie de barranco em queda livre. “SEGURA FIRME!” Por puro reflexo ele se agarrou à cintura dela, o coração descontrolado pela inundação de adrenalina. Não havia o que fazer, a não ser fechar os olhos e rezar enquanto continuavam descendo, quase verticalmente, por segundos que pareceram eternos. Por fim, a moto mergulhou numa espécie de córrego, deixando-os completamente encharcados.

Quando ela enfim parou, Cabeça estava tão abalado pela intensa trepidação da descida – e tudo o mais - que não teve forças para se equilibrar. Teria simplesmente tombado para o lado se ela não o amparasse a tempo. Com firmeza, ela o conduziu através de uma superfície plana coberta por uma relva macia, onde o deitou sobre um lençol branco que havia sido estendido ali previamente.
Só então percebeu que ele estava desmaiado, e balançou a cabeça num sorriso de decepção. A aparente fragilidade do adolescente a fez ficar pensativa, como quem precisa tomar uma importante decisão.


***


Acordei com aquela mulher maravilhosa me lambendo o pescoço. A sensação era deliciosa. Sonho ou realidade? Não tinha certeza. Por via das dúvidas, procurei manter os olhos fechados. Embora perplexo, não queria estragar o momento. Tentei não pensar em nada, mas certas coisas são inevitáveis. Em silêncio, minha mente começou a me sabotar, concentrando-se nos últimos acontecimentos. Não teve jeito. A lembrança da moto despencando ribanceira abaixo me sobressaltou, e ela percebeu, obviamente. Acho que nunca me odiei tanto.

- Pensei que não fosse acordar mais?

- Olha... Não precisa parar o que estava fazendo, se não quiser.

- Ora, vejam... Parece que a soneca te fez bem, hein!

- É sério. Eu nem quero saber onde estou.

- Não mesmo? Ficou corajoso de repente?

Ela estava debochando de mim. A realidade era gritante demais para ser ignorada. Por que uma mulher como aquela perderia tempo com um pirralho franzino e covarde como eu? E ela não era apenas linda. Ela era diferente. O modo como surrou o cara mais temido da faculdade e logo depois saiu pilotando a moto como uma... Não. Definitivamente, ela era radical demais para se interessar por um nerd como eu.

- Não que isso importe, mas... Como eu vim parar aqui no meio dessa... clareira?

Pela primeira vez parei para prestar atenção ao local onde estávamos. Era, de fato, uma clareira no meio da mata. Havia flores por toda a parte. Flores do campo, de todos os tipos e cores. A visibilidade era perfeita. Ao contrário do que eu esperava, o céu estava limpo, e a lua cheia reinava na noite, parecendo mais o sol do que o seu reflexo. Devíamos ter rodado mais do que eu pude perceber.

Olhei pra ela, e o que vi me deixou extasiado. A luz do luar reagia com a sua pele de uma forma totalmente nova, deixando-a com um tom azulado. Meu deus, ela parecia uma deusa indiana!

- Eu só te trouxe porque você quis vir, tá lembrado?

- Só por isso?

- Você não é de todo ruim – disse ela num sorriso condescendente.

- Isso é animador. Mas você ainda não me respondeu.

- Quer mesmo saber? Naquela festa você era o que tinha menos álcool correndo nas veias.

A resposta não me convenceu. Restrição a bebidas alcoólicas? Definitivamente, esse tipo de caretice não combinava com ela, e isso me deixou contrariado. Mesmo que fosse verdade, não era um bom motivo para mim.

- Não me convenceu.

- Não. Tá bom. Você é virgem. Esse foi o fator decisivo.

- Tá de sacanagem, né? – Exclamei num tom alto que era quase uma confissão, enquanto sentia uma onda de calor me queimar as faces. Um pio de coruja cortou o silêncio que se fez, e eu virei o rosto, fingindo procurar a origem do som. Não podia deixar que o rubor me entregasse ainda mais. Tentei rir. Um riso que soou falso.

- Você é doida? De onde tirou isso?

- Digamos que eu tenho o olfato mais apurado que a maioria das mulheres.

- Ah, entendi. Você sente cheiro de virgens. - Debochei, mas ela realmente parecia ter certeza do que dizia. - E quantos virgens você contou naquela festa?

- Na verdade, você era o único.

- Era, é? Você é engraçada, mas eu preciso ir andando.

- Não está com medo de mim, está? Estou querendo te dar o que você tanto buscava e você quer fugir?

Há momentos na vida em que ficamos encurralados. Eu realmente teria corrido pra longe dali se não estivesse no meio de uma floresta escura sem a menor noção de direção. Não que eu não a desejasse, mas uma mulher como aquela realmente intimida um homem como eu. Eu simplesmente não sabia o que fazer... ou por onde começar.

- Precisando de um manual?

Ela estava lendo os meus pensamentos? Não. Não era preciso. Ela só estava tentando me incentivar. Momentos como este, nos obrigam à ação.

- Se é isso o que você quer...

Antes de terminar de falar eu já havia arrancado o casaco e a camiseta. Em seguida, descalcei os tênis, as meias, desabotoei o cinto e baixei a calça jeans, levando junto a cueca, antes que me faltasse a coragem...

Nesse momento olhei pra ela e estremeci. Seus olhos exibiam o reflexo vermelho que eu já conhecia. Mas desta vez havia algo diferente neles. Desejo. Ela me queria. Inexplicavelmente, eu a excitava.

Por momentos, ficamos assim, parados de pé, eu totalmente nu, ela me olhando fixamente nos olhos, até que os dela assumiram uma expressão de profunda concentração, e todos os músculos do meu corpo se retesaram. Era impossível desviar daquele olhar.

Algum tipo de conexão psíquica estabeleceu-se entre nós, e ela começou a me transmitir tudo que eu precisava saber. Éramos como dois celulares trocando arquivos via bluetooth.

Foi tudo muito rápido, mas eu tive a sensação de que séculos se passaram. Eu já não era o mesmo. Sentia-me mais forte, mais alto, mais ágil. Meus sentidos estavam mais aguçados. Podia distinguir sons que antes me eram inaudíveis, e odores novos, vindos de todos os recantos, invadiram-me as narinas. Procurei me concentrar. Precisava controlar aquela avalanche sensorial antes que eu pirasse. Foi quando uma voz dentro do meu cérebro sugeriu que focasse nela toda a minha atenção. E foi o que eu fiz.

Não há como pôr em palavras o que então captei com a minha nova visão ampliada. Mas vou tentar.

Ela estava completamente nua; os cabelos negros, caídos sobre os ombros, ocultavam os seios; a pele azulada pelo reflexo feminino da lua; os olhos... os olhos eram um vulcão em erupção, disparando chispas incandescentes em todas as direções. Ela já não cheirava a jasmim. Cada poro da sua pele exalava uma alquimia de odores absurdamente irresistíveis. Ela estava me bombardeando com feromônios.

O lençol se tornou pequeno, e nós rolamos pela relva. De natureza selvagem, ela não cedia facilmente às minhas investidas. Exigia ser conquistada. Felizmente, eu conhecia todas as suas fraquezas. Tinha cada centímetro quadrado do seu corpo mapeado na minha mente e sabia exatamente onde e como tocá-la, aplicando a exata pressão, executando os movimentos na seqüência e no tempo certos. Ela havia me transformado numa máquina programada para lhe satisfazer.

A cada gozo, ela fincava as unhas nas minhas costas e urrava como uma leoa, para em seguida fugir de mim com a velocidade de um raio. E para meu espanto, eu a alcançava sempre.
Atracamo-nos, furiosamente, pela mata adentro, nos galhos das árvores mais altas, na lama barrenta das trilhas, sobre as pedras que marginavam um rio e as cascatas de uma cachoeira.

Estranhamente, o cansaço não me atingia. Não havia esforço. Nem uma gota de suor. Os músculos sempre prontos para a ação. Cada fuga provocava um novo encontro dos nossos corpos, numa excitação crescente que não me deixava perder a ereção. Ela se mostrava mais arisca, a cada vez, mas capitulava sempre quando eu lhe cravava os dentes no pescoço, a sua principal zona de erógena. Bastava alguns beijos para deixá-la mansa como um cordeiro, subjugada até o próximo e explosivo orgasmo. E foram tantos...

Não sei quanto tempo ficamos nisso, mas aos poucos fui notando uma sede diferente se apoderando de mim, até se tornar mais forte do que eu. Estávamos de volta ao lençol branco, depois de ter percorrido alguns quilômetros quadrados no entorno.

Uma vez mais eu cravei os dentes no pescoço dela, mas, dessa vez, dei franca vazão aos instintos. Podia ouvir claramente o sangue dela pulsando na jugular, o cheiro de ferro dilatando-me as narinas. Senti os meus caninos se projetarem e, num movimento quase autônomo, perfurarem a veia. Meus lábios sedentos sorveram com sofreguidão o líquido que jorrou abundante. Ela não ofereceu resistência. Parecia estar esperando por aquilo, como se fosse o ápice...


***


Em breve ele vai despertar, ciente de que agora é um de nós. Não era para ter terminado assim. Ele deveria estar morto e bem enterrado a esta hora, mas as coisas fugiram ao meu controle. Por que diabos o céu está sempre limpo naquela maldita clareira? Eu me arrisquei demais. Droga! Devia ter previsto que isso aconteceria. Não era uma boa noite pra caçar, mas essa maldita lua sempre me atrapalha o raciocínio.

Foi inevitável. Um humano jamais conseguiria me saciar. Não sob o efeito daquela lua. Não. Não mesmo. Eu precisava da virilidade de um vampiro.

Ele não sentiu nada. Estava desmaiado. Quando acordou, eu estava lambendo as últimas gotas. Bebi apenas o suficiente. Não foi fácil controlar a sede, mas eu estava excitada demais para ir até o fim.

Valeu à pena. Ah, se valeu! Há muito eu não fazia um sexo tão bom. O que os humanos chamam de sexo é menos que uma masturbação para nós. Chega a ser risível!

Eu não queria pôr mais um predador da raça humana nas ruas, não queria. Quanto menos de nós existirem, menos suspeitas serão levantadas, mas o que está feito, está feito. Ele bebeu do meu sangue, e o pacto agora está selado. Estaremos conectados pela eternidade.

Já lhe transmiti tudo o que ele precisa saber sobre mim e a nossa raça. Vai levar alguns dias até que tenha pleno acesso a todas as informações que eu lhe passei, mas os arquivos estão em sua mente. É só dar tempo ao tempo. Ao acordar, ele saberá que não deve permanecer nesta região. O anonimato é fundamental para o nosso estilo de vida. Somos nômades por necessidade, não por natureza.

Ele não vai descansar enquanto não me encontrar, eu sei. Eu o criei, e isso me torna uma espécie de deusa aos seus olhos. Em algum momento ele poderá me ser útil, mas não agora. Antes disso, terá de aprender algumas coisas por si mesmo. Estarei atenta até chegar a hora, como uma mãe zelosa. Não é o que os deuses fazem? Enquanto esse momento não chega, poderei ver através dos seus olhos, ouvir com os seus ouvidos e ler cada pensamento, mesmo à distância. Pensando bem, sou mesmo o mais próximo de Deus a que ele vai chegar.

Há tempos venho sentindo necessidade de respirar novos ares. Quem sabe a Europa. Isso. A Europa. Vou gostar de rever os parentes de Portugal. Acho que o clima frio de lá vai me fazer bem. Não que o frio me afete, mas eu gosto da atmosfera. E depois, é impossível controlar os hormônios neste clima tropical.

Essa lua... Meu Deus!... Essa lua me deixa completamente enlouquecida.

quinta-feira, 10 de Setembro de 2009

Amante das Leituras: Vencedora do Desafio de Prosa de Março de 2009 - Sonia Regina


Um Bloco de Notas


Sonia Regina


Naquela manhã caminhou calado, ao deus-dará: aguardava o supérfluo ser aceito
por seus pensamentos. Enxergou-a em algumas mulheres e balançou a cabeça
como se, sacudindo-a, pudesse espalhar as imagens pouco cômodas.

O excesso de voz sem possibilidade de vazão o levara a um mutismo total. O
trabalho na biblioteca permitia-lhe mergulhar nos livros e ainda receber por isso.
E ali a sua veneração pelo silêncio não era estranha, pelo contrário: era bemvinda;
e um ponto a mais.

Rubem gostava de ler sem nada dizer e de escrever sobre o que lia, ou sobre o
que lhe ocorria, embora a escrita lhe parecesse um pouco vampira de emoções.
Sentia-se esvaziado, como se cada palavra pudesse levar para o papel uma
energia sua.

Não se insurgira contra o ritual de ter, para cada página lida, algumas
considerações no pequeno bloco de notas que ela lhe havia dado. “Para tuas
reflexões”, dissera Nympha sorrindo. Não o teria oferecido, se suspeitasse que
um redemoinho insano nele aportaria.

Rubem galgara, a partir de então, mirabolantes pontes para encontrar o que não
via, enredado em suas obsessões. Impenetrável, cenho franzido, ele se debruçara
sobre possíveis indícios e com lógica científica seguira fios condutores. Embora
diante de fragmentos, estivera convencido de que, nas partes, vislumbrava-se o
todo. E seguira. Acreditando em suas próprias formulações falsamente
comprovadas, chegara à reta final. O bloco de notas por testemunha.


* * *

Depois de muito perambular, Rubem chegou à biblioteca. Deu uma olhada rápida
nos livros devolvidos e se comoveu com o trecho de Sophia de Mello Breyner
Andresen: "As imagens atravessam os meus olhos e caminham para além de
mim. Talvez eu vá ficando igual à armadilha da qual os pescadores dizem ser
apenas água."

Escreveu no bloco um texto que mais lhe pareceu um poema, pela profusão de
imagens. “Quem sabe um dia...”, pensou entristecido.

Nas calmarias de sua confusa intimidade a paisagem tinha o fôlego de mil
oceanos bravios. Rubem nutria-se das cores e do alento que, vindo no vento,
mudava as formas das nuvens.

Tinha, nesses instantes, a permissão do devaneio. Olhava cada coisa com
brandura, o lápis riscando arabescos no papel como se ele, sem presente,
somente estivesse ligado ao passado e ao futuro, por um fio invisível.

* * *

No final da tarde um burburinho na biblioteca assinala a entrada dos policiais.
Rubem estende as mãos e sai com eles.

No balcão ficam o jornal daquela manhã, recortado, e a notícia bombástica -
“bibliotecário afoga a namorada e corta-lhe a garganta, no dia do
noivado” -, colada na última folha de um bloco de notas totalmente escrito, onde
se lia:

Está roto de significados, o meu
respirar. Precisa de um convite, o meu
olhar. O gosto de sangue tremula, num
frêmito de horror.
Extratos concêntricos de magia
escaparam dos meus dedos, no leito do
rio a angústia silenciou e a água falou.
Num tablado vazio de palavras a
imagem se criou e, o criador, dela se
apossou em ato poético: gerou poesia no
fundo da garganta.
Uma voz inquiriu, num tempo já sem
margens:
- É tua a imagem que bate na minha,
fazendo sombra na relva?

- // -

Amante das Leituras: Vencedora do Desafio de Prosa de Abril - Maria João Oliveira


Os fantasmas do palácio

Maria João Oliveira

É mais fácil desintegrar um átomo
do que quebrar um paradigma (Albert Einstein)



Como nunca estava em sintonia com as emoções alheias, facilmente se deixava monopolizar pelas suas. Entre sonhos e bolas de naftalina, mudava o mundo. As suas teorias já tinham muitas décadas e eram imutáveis. Se alguém não as apoiasse, estava, necessariamente, errado e tinha um longo caminho a percorrer, para alcançar a maturidade. A Verdade estava sempre do seu lado. E os seus dragões vomitavam fogo, se alguém se atrevesse a dizer que melhor seria ficar ela do lado da verdade… Assim, talvez pudesse alargar o coração, para acolher as pessoas que tiveram de sair, por falta de espaço. Ele estava cheio de personagens que representavam sempre os mesmos papéis. Não havia luz lá dentro, mas elas estavam tão bem contempladas de certezas absolutas que “viam”, muito bem, o “caminho”. O seu caminho. Os arcobotantes das suas “verdades” eram implacáveis. Nem um sismo de elevada magnitude conseguiria arrasar esta “catedral”, ainda que tudo se desmoronasse à sua volta e se registassem graves condicionamentos de trânsito na rua dos afectos.

Um dia, entrou, por engano, nesta rua e viu uma menina, já crescida, que foi ao seu encontro e lhe disse:

- Quero ser tua amiga, Isabel. Dá-me a tua mão.

- Porquê?!

- Porque gosto de ti…

- Ah, então está bem. Vem comigo.

E a menina foi a casa de Isabel. Os pés já lhe doíam muito e os sapatos estavam a ficar rotos. Tinha fome de tudo, mas sabia ouvir. E esta capacidade abria-lhe portas pesadas de ferro, com várias dobradiças, embora tivessem sempre um problema: também eram de vidro. Um vidro que não deixava passar a luz. Ainda assim, a menina não desistia. Se a convidassem, acabava por entrar. Sentava-se para ouvir melhor. E falavam-lhe dos seus feitos heróicos desde a infância, das suas dores na perna esquerda, das suas rendas e bordados, das suas viagens, dos seus negócios bem sucedidos, dos seus livros, das palmas recebidas, mas também da ingratidão dos deuses menores, dos seus mísseis de longo alcance que… eram flores, sempre flores, para ajudar os outros a “crescer”. A menina ouvia e nunca se cansava. Escutava, atentamente, todos os rumores, como se estivesse numa praia, à espera de um barco. Sem o saber, segurava um espelho mágico. E, apesar de saber ouvir, estas palavras escapavam-lhe sempre: Espelho, espelho meu, há alguém mais bela do que eu? Em casa de Isabel, aconteceu a mesma coisa: Espelho, espelho meu…Porém, a menina não ouviu tais palavras. Nem viu uma auréola em volta da cabeça de Isabel. Ouvia, sem descanso. Dava a sua mão. Tinha o céu dentro de si. E nunca atirava uma pedra ao vidro da porta. Por isso, às vezes, lembravam-se de que ela existia, ofereciam-lhe flores, conselhos amigos, certificados de bom comportamento e até alguns ramos de alecrim para as encruzilhadas da sua sensibilidade… Mesmo assim, queriam que ela voltasse sempre. E falavam com ela, durante horas consecutivas, sem se aperceberem da impossibilidade de sair de si. A ideia de “verticalidade” predominava no estilo gótico das suas profundas convicções. E não precisavam de arcobotantes, porque era impensável que as suas abóbadas caíssem. A menina, às vezes, sentia o seu peso, mas achava que isso se devia à fragilidade dos seus ombros de adolescente. Não sabia que “nada existe de mais frágil do que uma criatura iludida a seu próprio respeito”, como disse alguém. Também não sabia que as suas interlocutoras tinham perdido o coração de criança, há muito, e colocado a sua própria imagem num altar. Elas também ignoravam tudo isto. E continuaram a enternecer-se, apenas, consigo próprias.

A certa altura, a menina começou a sentir-se perdida num denso nevoeiro. E olhou, finalmente, para si própria. Tinha as mãos cheias de nada. A sua roupa estava desbotada por muitos sóis de escuta empática. E os sapatos estavam cada vez mais rotos. Chorou muito, mas a sua venda preta caiu totalmente. Ainda assim, atravessou a ponte, mais uma vez. A ponte para o estranho mundo de quem se habituou a mandar e a possuir. Ela queria olhar, para ver. E se não pudesse dissipar o nevoeiro, o tacto havia de a orientar. Se as outras vendas pretas também caíssem, celebraria tal acontecimento. Ao fim e ao cabo, amava as suas distraídas interlocutoras. Mas elas começaram a traçar-lhe caminhos, sem se aperceberem de que a menina tinha o seu próprio mapa e que já não prescindia dele. Não a escutavam, interrompiam-na, cada vez mais, e começaram a empurrá-la para trás, visto que ela não estava a cumprir as obrigações do ofíciode escutar e já não depunha ofertas, em frente dos seus altares. Assim, a menina não servia para nada. Desabaram fortes tempestades, mas ela continuou a remar contra a corrente. Os vidros das portas de ferro estilhaçaram-se. Não podia nem queria enjaular convicções enfurecidas, mas sabia que Einstein tinha razão, quando disse que era mais fácil desintegrar um átomo… Tudo o que pensavam, diziam e faziam era imutável. Escalar a montanha, com elas, para assim ganharem, em conjunto, horizontes mais largos, não era possível. Nos corredores do palácio de cada uma, vagueavam fantasmas que tinham sempre a última palavra.