UMA QUESTÃO DE VIDA E MORTE
Denilson Neves
Considerado um homem santo na pequena cidade onde vivia - pouco mais que uma praça com uma igrejinha -, Geraldo era tratado com respeito. É que ele tinha um dom. Podia ver os mortos. Mais que isso, dialogava com eles, e deles recebia instruções, receitas e fórmulas. Mistura de curandeiro com benzedor, fazia de tudo um pouco no ramo da medicina natural, como gostava de chamar o seu ofício. Não cobrava um centavo, e assim mesmo não lhe faltava o necessário, pois não havia quem não lhe desse um pouco do muito ou pouco que tinha, embora ele raramente aceitasse dinheiro. Ele era querido.
O povo aumenta, mas não inventa, e a fama de Geraldo corria longe. Até mesmo da capital vinha gente para se consultar. O povo contava de curas milagrosas operadas em pacientes desenganados, e não faltavam testemunhas para confirmação.
Atendia numa cabana, localizada no alto de um morro mais afastado da cidade. O acesso era difícil. Para chegar, só mesmo a pé ou a cavalo, e assim mesmo depois de uma boa caminhada. A cabana humilde, mobiliada com o mínimo necessário – nem TV tinha -, não oferecia conforto, mas quem nela entrava atestava de imediato as qualidades renovadoras do ambiente. Talvez fossem os ares da montanha, mas o que se dizia era que a aura de Geraldo tinha o poder de dissolver as energias negativas.
De poucas palavras, Geraldo era um homem solitário. Não saía de casa senão para visitar a mãe e as irmãs. Luciana, a caçula, era recém-casada, e Lucinha, a mais velha, divorciada do marido que conheceu na adolescência e nunca deixou da amar, mesmo após anos de sofrimento num casamento fracassado. Fora isso, seus momentos de lazer restringiam-se aos livros, um gosto que adquiriu sozinho na biblioteca da escola que, por contingências da vida, teve que abandonar muito cedo. Felizmente, o povo da cidade, sabedor desse seu gosto, nunca lhe deixava faltar o que ler, incluindo o jornal do dia.
Geraldo teve uma infância difícil até o seu dom se manifestar, e, mesmo após, enfrentou uma montanha de preconceitos. Não fosse pelo apoio dos amigos invisíveis, sempre presentes, talvez lhe faltasse a fibra necessária para aceitar a difícil missão de encarar a morte tantas vezes de perto. Os anos de prática e convivência com os enfermos de toda espécie, contudo, encarregaram-se de fortalecer-lhe os nervos. Aos poucos, aprendeu a ver a morte como um novo nascimento, e isso fez toda a diferença. Não há quem se lembre de vê-lo chorar ou de alguma forma abalar-se nesses momentos extremos. Difícil era consolar os familiares com os seus argumentos. É mais bem mais fácil quando se tem o dom.
Quando a irmã Lucinha lhe mostrou o caroço que tinha aparecido no seio esquerdo, ele teve um mau pressentimento, o que, no seu caso, valia mais que um diagnóstico preciso. Lucinha apavorou-se ao ver o irmão recusar-se a operá-la, coisa muito rara de acontecer. Geraldo estava acostumado à retirada de tumores, o que fazia até mesmo sem anestesia. Suas cirurgias espirituais não causavam dor alguma, coisa que os médicos da região nunca conseguiram explicar. O fato é que, após aplicar um passe preparatório, impondo as mãos sobre a área afetada, ele podia cortar tecidos e fazer incisões profundas sem que seus pacientes movessem um dedo sequer. E apesar de utilizar apenas facas domésticas esterilizadas com uma breve fervura, nunca teve problemas com infecções. Se era sorte - ou talvez efeito da sua aura purificadora - ninguém nunca pôde afirmar.
Qual então o motivo da recusa?
Geraldo não quis explicar muito. Disse somente que o problema não era espiritual, e exigiu que a irmã procurasse um hospital o quanto antes, no que foi atendido. O resultado dos exames saiu rápido. Lucinha havia contraído um câncer de mama. Foi como se o mundo caísse sobre os ombros da família. Geraldo foi o único que não se desesperou.
O médico aconselhou a família a procurar um tratamento mais especializado na capital, e indicou o Instituto Nacional do Câncer, no Rio de Janeiro. Foi um ano de provas aquele. As cansativas viagens para o Rio, os cabelos caindo, a peruca, a retirada da mama, a queda inevitável da auto-estima que já era baixa...
Após um ano de quimioterapia, seguida pela radioterapia, Lucinha teve alta. A família comemorou como se fosse um segundo nascimento, mas Geraldo manteve-se calmo. “É o jeito dele.” – disse a mãe, para afastar a preocupação da cabeça da filha.
Seis meses depois, Lucinha voltou ao INCA para a revisão de rotina, sem saber que a tranqüilidade familiar estava com os dias contados. O pior acontera. Ela tinha tido uma metástase, palavra que Geraldo ouviu pela primeira vez, para jamais esquecer. O câncer tinha se espalhado através dos ossos.
Com o apoio da família, Lucinha jamais desistiu de lutar, mas a desordem celular não lhe deu tréguas. As viagens - cada vez mais penosas - e as dores intensas foram, aos poucos, minando-lhe resistência. Geraldo tentava aliviar-lhe o sofrimento, mas os passes anestésicos já não surtiam o mesmo efeito. Felizmente, os moradores da cidade sensibilizaram-se com o drama familiar por que passava Geraldo e conseguiram hospedar Lucinha na casa de um parente de uma paciente dele que morava perto do INCA.
Mas a verdade é que o irmão de Lucinha em nenhum momento se deixou abalar. Continuava atendendo aos que o procuravam com o mesmo carinho, apesar dos modos reservados que sempre lhe foram característicos. No dia em que recebeu o recado da irmã Luciana, avisando que Lucinha tinha poucas horas de vida e requisitava com urgência a presença do irmão, ainda naquele momento, Geraldo demonstrou estar em pleno controle das suas emoções.
O próprio entregador do recado ofereceu a condução, e a viagem para o Rio foi relativamente rápida. Ao chegar, o médico responsável, respeitosamente, solicitou autorização para aplicar uma alta dose de morfina em Lucinha. A dor seria aliviada ao custo da abreviação do tempo de vida. Geraldo não pensou duas vezes. Não restava mais nada a se fazer.
Ao entrar na enfermaria, encontrou Luciana, aos prantos, debruçada sobre o leito da irmã. Luciana era, de longe, a que mais sofria com o calvário de Lucinha. Mais que irmãs, as duas tinham uma ligação de mãe e filha. Quinze anos mais velha, Lucinha tinha ajudado a criá-la, suprindo a ausência da mãe, que teve de trabalhar duro para sustentar a família após o falecimento do pai.
Tão logo o avistou, Luciana correu para os braços de Geraldo, deixando a emoção aflorar em lágrima abundantes. Somente após ela se acalmar, ele conseguiu aproximar-se do leito onde a irmã agonizava num quadro desolador. Com extrema dificuldade, os pulmões tentavam desesperadamente sugar o ar necessário para manter o corpo em funcionamento. Os olhos, completamente descontrolados, oscilavam dentro das órbitas sem direção, incapazes de manter o foco no que quer que fosse. Eram, sem dúvida, o reflexo da inconsciência que já a dominava.
Geraldo ressentiu-se por não ter chegado a tempo de trocar uma última palavra com a irmã, mas o momento exigia disciplina. Como tantas vezes antes, a morte cruzava o seu caminho, desafiando-o a sustentar-se sobre os alicerces das suas convicções mais íntimas.
Buscando concentrar-se, fechou os olhos em oração, e, ao reabri-los, um novo cenário se descortinou. Em volta de Lucinha, uma equipe de médicos vestidos em túnicas luminosas trabalhava infatigavelmente, em contraste com a paralisia imposta pela tristeza dos que não aprenderam a ver a morte como um novo nascimento. Conhecedor das dificuldades criadas pelo poder atrativo daqueles que não se conformam com a separação, Geraldo tratou de aplicar um passe calmante em Luciana, que rapidamente adormeceu. Enquanto os trabalhadores do outro plano preparavam Lucinha para um novo despertar, com especial atenção ao rompimento do cordão luminoso que unia o corpo à alma, Geraldo sentou-se numa cadeira e abriu o jornal.
Durante um tempo que ele não soube se longo ou curto, procurou distrair-se com as noticias das páginas esportivas. Como se recusava a ter TV em casa, era pelo jornal que ele se mantinha informado do desempenho do seu time no campeonato brasileiro. As coisas não andavam bem, mas ele conseguiu mudar o foco dos pensamentos.
Leu páginas seguidas, até que uma mudança no som ambiente se fez notar. O esforço desesperado de Lucinha para captar o ar tinha cessado. Levantou a cabeça e olhou para a irmã. O olhar, antes frenético, estava fixo, sem vida, mas ela parecia tranqüila. Luciana dormia ainda.
Qualquer outro teria agido diferente, mas o que Geraldo fez foi continuar lendo o seu jornal, como se nada tivesse acontecido. Pode-se dizer que ele estava quase alegre. O martírio de Lucinha tinha chegado ao fim, isso não era razão suficiente para alegrar-se? Esperou ainda mais uns dez minutos. Queria dar um tempo para a irmã, antes que a inevitável turbulência emocional tivesse início.
Levantou-se, enfim, e caminhou até a irmã. Segurava a mão inerte na sua no momento em que o médico chegou. Não havia mais necessidade da morfina. Tudo o que ele fez foi fechar os olhos de Lucinha.
- Meus pêsames.
Os olhos subitamente marejados de Geraldo fizeram com que o médico se afastasse em sinal de respeito. Nesse momento, Luciana abriu os olhos e surpreendeu-se ao ver o irmão chorando. A surpresa foi tanta – quase tanta quanto a dele mesmo – que ela levou algum tempo para se dar conta do que tinha acontecido.
Os dois abraçaram-se, as lágrimas de um consolando o outro mais do que um milhão de palavras conseguiriam. Geraldo, pela primeira vez desde que se lembrava, compreendeu a impotência da razão quando duas almas que se amam vêem-se diante de uma separação definitiva. A emoção veio de dentro, sem pedir licença, e não houve como represá-la. De nada adiantou saber que ela ainda vivia, amparada e até mais saudável do que jamais esteve. Ela já não era a Lucinha, sua irmã. Nunca mais seria.
Um filme desenrolou-se na sua mente. Anos e anos de convivência. As brincadeiras de criança, as dificuldades financeiras que viveram junto à mãe e à irmã caçula - até fome eles passaram. Tudo isso formou laços invisíveis que se recusavam a um rompimento sem dor.
A mãe deles, Dona Creuza, foi a última a se unir naquele abraço. Ela tinha ido visitar a igreja antes de seguir para o hospital, e o padre lhe assegurara que Lucinha já estava curada. E estava mesmo, Dona Creuza logo compreendeu. O coração de mãe consolou-se com aquela idéia, e ela olhou para o corpo da filha como se fosse um vestido velho que já não prestava mais.
Geraldo, naquele momento fatídico em que todas as suas convicções foram postas à prova, recorreu ao colo da mãe, como fazia nos tempos de menino - ainda não se ergueu maior fortaleza que esta. Dona Creuza enxugou as lágrimas do filho e lhe trouxe de volta à realidade.
- Não chore filho. Sua irmã está melhor agora.
O enterro do caixão foi o último momento de pranto na família. Era uma imagem muito forte, mesmo para um vestido imprestável. No minuto seguinte, entretanto, não havia quem não estranhasse o sorriso e a alegria estampados naqueles olhos há pouco tão sofridos.
Era a vida que renascia.






